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FERNANDA GHIGNONE CABECA HOJESC

O prazer de comer sem culpa

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Um dos maiores prazeres da vida está no ato de comer, e não apenas pelo sabor, mas pelo que a comida representa. Basta imaginar uma mesa posta com pratos preparados com carinho, pessoas queridas ao redor, conversas leves e aquela sensação de acolhimento que só uma refeição compartilhada é capaz de trazer. Comer é afeto, memória e conexão. No entanto, à medida que crescemos e acumulamos regras, dietas e medos, esse prazer tão natural muitas vezes se transforma em culpa.

E é justamente nessa confusão entre prazer e culpa que muitos acabam perdendo algo essencial: a liberdade de sentir fome. No consultório, vejo diariamente essa dificuldade. Pessoas que têm vergonha de comer, que acreditam que fome é sinal de falta de controle, quando na verdade sentir fome é fisiológico, saudável e necessário. É o corpo comunicando suas necessidades, pedindo nutrientes para continuar funcionando. O desafio está em reconhecer a diferença entre a fome real e a chamada gula emocional, que surge quando buscamos alívio, distração ou conforto na comida.

Esse desequilíbrio cria um relacionamento ruim com a alimentação, transformando o que deveria ser um momento de prazer em mais uma fonte de estresse. Uma forma simples de começar a reconstruir essa relação é desacelerar. Prestar atenção no alimento, no aroma, na textura, na cor. Comer sem o celular, sem a televisão, sem interrupções. Quando você se permite viver a experiência da refeição com presença, naturalmente passa a respeitar seus limites e a perceber quando está satisfeita, sem precisar de controle rígido.

Hoje, com o uso crescente das canetas emagrecedoras, muitos usuários deixam de sentir fome e consequentemente emagrecem, mas quando o tratamento termina, se não houve reeducação alimentar, consciência e mudança de comportamento, o ciclo recomeça exatamente do mesmo ponto. A medicação pode ser uma ferramenta importante em vários casos, mas ela não substitui a construção de um vínculo mais leve e não de compulsão pela comida.

Por isso, da próxima vez que estiver diante de um prato que você ama, quero que faça um exercício simples. Imagine que aquele alimento é único no mundo. Pegue, por exemplo, uma manga madura, geladinha num dia quente. Corte, sinta o perfume, perceba a textura na língua e saboreie sem pressa. Faça isso com uma refeição por dia, depois com outra, e aos poucos você vai perceber que comer pode ser um momento gostoso para desfrutar e não de punição.

Alimentar-se bem não é sobre restrição, culpa ou medo e sim sobre nutrir o corpo. Experimente novos sabores, coloque mais cor no prato, traga variedade para a rotina. Descubra vegetais que nunca provou, frutas que não faziam parte do seu dia a dia, temperos que podem transformar suas receitas. Essa curiosidade alimentar muda tudo, aumenta o prazer, melhora a saciedade e torna as escolhas saudáveis mais naturais, sem esforço.

Quando você transforma a refeição em um momento de atenção plena e não de impulso, passa a reconhecer a verdadeira necessidade fisiológica do corpo. Quem come com presença dificilmente ultrapassa seus limites naturais ou desenvolve uma relação ruim com a comida, porque aprende a diferenciar o que é fome real, que nutre e traz prazer, do que é gula, que pesa e gera culpa. Esse autoconhecimento muda a forma como enxergamos o alimento e também como cuidamos do peso, já que ouvir o corpo é um dos caminhos mais eficazes para cuidar da saúde.

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