
Carlo Ancelotti veio a Curitiba acompanhar o jogo entre Athletico e Flamengo, na Arena. Na véspera da convocação oficial da seleção brasileira me pareceu um desatino. O que mais há a observar?
Ele desembarcou na capital em um jatinho particular, não deu entrevistas à imprensa, foi direto para o estádio e assistiu ao jogo em um camarote VIP. As imagens vistas do ‘mister’ o mostram carrancudo e isolado. Ninguém se atreveu a se sentar ao seu lado.
Há notícias que o Mário Celso Petraglia, o interminável presidente do Athletico, o presenteou com uma camisa do rubro-negro paranaense e, de fato, algumas sacolinhas de brindes do clube foram mostradas em uma cadeira às suas costas.
Ele não tinha um bloco à mão para fazer anotações e, até onde se sabe, não trocou meia dúzia de palavras com o coordenador-geral da CBF, Rodrigo Caetano, seu acompanhante na viagem.
Garoto-propaganda
A viagem de Ancelotti a Curitiba pode ter sido apenas um gesto publicitário. De fato, o técnico italiano anda faturando em comercias da TV e sua aparição colabora em muito para que os efeitos de garoto-propaganda surtam mais efeito sua observação deste ou daquele jogador. A Globo dá como certa a convocação de Danilo, zagueiro reserva do Flamengo, considerado jogador de confiança e Ancelotti. Não sei o que é isso.
Tite fez o mesmo na Copa do Qatar. Convocou o lateral direito Daniel Alves, 39 anos àquela altura, sem explicar por que um jogador que treinava no time B do Barcelona estaria apto a figurar entre os 26 convocados, quando tudo demonstrava o contrário.
Alves jogou duas vezes: na estreia da seleção contra a África do Sul e na goleada de 4 a 1 sobre a Coreia do Sul, quando saiu do banco de reservas.
No mais tocou pandeiro. Nenhuma nota aqui ao estupro pelo qual foi acusado dois anos depois, na Espanha. Mas foi o que ficou.
Álbum de figurinhas
Não fosse pelas figurinhas da Copa e jamais me daria ao trabalho de conferir quem são o convocáveis por Ancelotti. Ele acaba de renovar o contrato com a CBF, em valores que ultrapassam 1 milhão de dólares por mês. Suas visitas ao Brasil são sazonais e o espetáculo em torno de sua persona são evidentemente exageradas.
É um desespero saber que Rodrygo, Edson Militão e Estevão não estarão entre os escolhidos porque já grudei suas figurinhas. Amanhã, quando tomar Cafuringa por Cafu, tudo o que emanar de minha coleção de figurinhas será apenas uma versão falsa da história.
Nelson Rodrigues era um otimista em relação à seleção brasileira. Achava que o complexo de vira-latas nos afetava. Penso o contrário, acho que é o pessimismo em relação ao futebol brasileiro que nos faz encarar o esporte com alguma seriedade. Foi com um pessimismo maiúsculo que a seleção brasileira conquistou a Copa em 2022. Isso e a eliminação precoce da Argentina. Isso e a eliminação precoce da França (sem marcar nenhum gol). Isso e a eliminação precoce da Itália. Isso e a semifinal do Brasil com a Turquia.
Vencemos quando o paraíso eram os outros. Nós continuamos sendo o inferno.
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