Cesse o rufar dos tambores, à direita e à esquerda. A civilização não é mesmo para o Brasil (copyright Clóvis Rossi). Em dois meses comprovaremos, empiricamente, que o país que se queria novo é o velho país dos últimos 15 anos. Acima do debate necessário, restará não o Fla-Flu, não o melhor da Argentina e da Espanha, mas o pior de um jogo de várzea em campo enlameado.
Não haverá bem-aventurados nesse cenário. Os que torcem o nariz para os escândalos de corrupção do “Master”, do bolsonarismo e do decrépito lulopetismo, em breve apontarão o dedo para a corrupção alheia, esquecidos de que, ao fim e ao cabo, quem triunfará é ela — a corrupção —, sacudida e risonha. Os que, odiosamente, carimbam de fascista ou comunista aqueles que guardam opinião diametralmente oposta repetirão à exaustão o “nós e eles”, dito irresponsavelmente em terra que só faz produzir miseráveis, no atacado e no varejo.
Profetas ungidos ou arautos do apocalipse, resta-nos lamentar: perdoai-os, Senhor, eles sabem o que fazem. Thomas Piketty, tão citado e pouco lido, não deixou dúvida ao analisar a desigualdade no Brasil. No período de 2001 a 2015, o bolo da riqueza foi obscenamente distribuído: 55% para os mais ricos e 12% para os mais pobres. Antes, os ricos detinham 54% da fatia; os pobres contentavam-se com 11%. Para efeito de comparação: nos EUA, os mais ricos detêm 47% da renda bruta, isso com toda a desigualdade que por lá paira.
Esqueça, portanto, a balela do “pai dos pobres”. Os ricos continuam muito bem, obrigado, e engrossam, por certo, o exército de eleitores dispostos a votar em Lula pela quarta vez.
Do outro lado, que se diz opositor, resta rir às escâncaras quando decide chamar os adversários de “comunistas”. Falta escola para essa gente ou, ao menos, algumas lições de história. A tolice é de tal monta que dá oportunidade para que o outro lado recorra a Lênin e xingue Bolsonaro Jr. do que não é: ditador. Acuse os “bolsominions” do que não são: fascistas.
Quem precisa de ditador ou intervenção militar quando se tem presidencialismo de coalizão? Fernando Henrique Cardoso, que continua a dizer #elenão, aliou-se a José Sarney, Antônio Carlos Magalhães e ao baixo clero (Bolsonaro incluso) para que pudesse governar. Lula e Dilma erigiram obra idêntica. Senão, como explicar Severino Cavalcanti? E José Sarney? E Antônio Carlos Magalhães e o baixo clero?
Não se trata de relativismo de botequim que justifica quando deveria condicionar, que compensa quando deveria contextualizar historicamente. É fato.
Que a claque aplauda Trump quando afirma que não se pode negociar com a China por ser “comunista”, é compreensível. Trata-se da direita tola, obtusa, empacada. Que Lula peça ao seu séquito que esqueça tudo o que ele praticou, assim como FHC pediu que esquecessem tudo o que escreveu, é natural. Trata-se da esquerda miseravelmente anacrônica. Mas a maioria que votou em um ou em outro não pensa assim. Ou não deveria.
Por tachar de imperialistas ou comunistas nações não afinadas com a ideologia dominante, é que o governo brasileiro foi dar em tratados de livre-comércio absolutamente risíveis com Palestina, Israel e um país africano, cujo nome me escapa.
Assim parece, salvo engano, que o brasileiro morre de amores pelo Palhares, o canalha perfeito de Nelson Rodrigues. Assim parece, salvo engano, que os brasileiros somos irmanados e afeitos ao pior que o nepotismo, o compadrio e a corrupção produziram na história recente. Assim parece, salvo engano, que a moeda da República tem duas faces, ambas idênticas, ambas estampando o “Fradim” do chargista Henfil, a ecoar o gesto famoso do “top top”.


