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maria do rocio vaz cabeca

O Fusca cor de abacate

fusca-verde

Ela me pediu abacate. Imediatamente lembrei do Fusca cor de abacate da minha avó. O carro mais popular e mais querido do Brasil na década de setenta era quase um personagem. Quase todo mundo teve um: o do pai era azul, o do tio, vermelho e o do meu melhor amigo, azul claro, o Herbie.

A minha filha, quando pequena, colecionava miniaturas: tinha um de cada cor. Brincávamos com eles no postinho de gasolina do Mickey, que eu comprei mais para mim do que para ela.

Voltando ao passado, era comum os homens usarem modelos maiores, como Opala ou Galaxie, e deixar o Fusquinha para as esposas e filhas.

Eu, com uns dez anos, passeei muito no Fusquinha verde com minha tia, oito anos mais velha que eu, recém-habilitada. Éramos quase irmãs. Herdava as roupas e sapatos dela, e também os discos que ela não queria mais.

Foi assim que aprendi a gostar dos sucessos dos anos setenta, que tocavam na vitrola vermelha: Elton John, Bee Gees, The Carpenters, Abba. Eu decorava as letras, que amo até hoje, enquanto a “titia” me ensinava inglês.

Certa vez, meus avós viajaram e fui dormir na casa dela. A residência da Rua da Glória – onde nasci e morei por um tempo – não era de fácil acesso, mas tínhamos um medo natural de menina. Trancávamos todas as portas, todas as fechaduras possíveis. E, se algum estranho tocasse a campainha, devíamos dizer que “o pai estava fazendo a barba”.

O relógio de pêndulo, na parede da copa, não perdoava qualquer silêncio.

Escrevendo, posso sentir o cheiro dos ambientes, a maciez do carpete da sala, a meia-luz do quarto, o perfume do sabonete Original. Faço de conta que não estou aqui. Putz, escrever me confessa.

Segue.

No dia seguinte, levantamos o portão da garagem, que rangia – um som não tão amedrontador quanto o do leão do Passeio. Saímos faceiras. Não me lembro para onde fomos, nem o que fomos fazer. Mas, se da ida não guardo detalhes, ah, da volta me recordo bem.

Estávamos virando a esquina de casa, que é difícil de fazer até hoje, quando o Fusquinha arriou. Bateu as botas. Não saía do lugar. Azar danado, faltavam uns cinquenta metros para chegar. Rua vazia, nenhum macho para empurrar. Tivemos que deixá-lo ali, plantado na curva.

Eram tempos de lista telefônica. Precisávamos de um guincho. Minha tia procurava pela ordem alfabética. Eu, pelos anúncios. Queríamos o mais rápido e o mais barato.

Ela ligava: “É do guincho?”
Eu caía na risada. E ela também. O desfecho deixo por conta de vocês, afinal, éramos jovens, meninas-moças, tudo havia de dar certo. Tão certo…

Não sei se minha tia-irmã guardou essa aventura, mas eu rio cada vez que passo por lá. Procuro a casa, que já não existe mais. Às vezes paro em frente só para ouvir os bem-te-vis. Ou “Your song”, “Close to You”, ou “Dancing Queen”.

*O Fusca cor de abacate viveu por anos. Minha avó ia para Guaratuba com ele, quando meu avô viajava.

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