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luis mario luchetta coluna hojesc

O Congresso de despachantes e o silêncio dos covardes

Ao apagar das luzes de mais um ano legislativo, o cidadão brasileiro precisa fazer um balanço honesto, e doloroso, do que acontece em Brasília. Se a função de uma empresa é gerar valor e a de um médico é salvar vidas, qual tem sido a entrega real do nosso Congresso Nacional? Infelizmente, para uma parcela majoritária, a resposta se resume a uma única e viciada palavra: emendas.

Transformamos o Parlamento, que deveria ser a casa do debate, da legislação e, acima de tudo, da fiscalização, em um balcão de negócios de luxo. Temos hoje uma legião de deputados que abdicaram de suas prerrogativas constitucionais para se tornarem meros despachantes de verbas. Eles acreditam, e tentam nos convencer, que devolver ao município uma ninharia do imposto que o próprio governo nos extorquiu é um ato de heroísmo. Não é. É obrigação travestida de favor, é o nosso dinheiro retornando de forma ineficiente, muitas vezes apenas para garantir a reeleição de quem entregou o cheque simbólico.

Enquanto esses parlamentares se embriagam com o poder de direcionar o orçamento, o Brasil real sangra por falta de gestão e de coragem. O exemplo mais vergonhoso deste ano foi o fracasso na instalação da CPI do INSS.

Estamos falando de uma autarquia que colapsou. Filas humilhantes, sistemas inoperantes, benefícios negados a quem contribuiu a vida toda e fraudes bilionárias que drenam o erário. A situação exigia uma investigação rigorosa, uma devassa técnica e política. E o que fizeram os nossos representantes? A maioria se acovardou.

É ultrajante constatar que, entre os deputados federais do Paraná — estado que se orgulha de ser uma terra de trabalho e moralidade —, houve quem se recusasse a assinar o pedido de abertura da CPI. Preferiram o conforto do silêncio e a manutenção de boas relações com o governo de plantão a defenderem os aposentados e pensionistas que sofrem na fila da previdência. Essa omissão não é apenas um erro estratégico; é uma falha de caráter público. É o medo de perder o acesso aos ministérios falando mais alto do que o dever de proteger a cidadania.

Esse comportamento desenha o cenário que enfrentaremos no próximo ano. Com as eleições no horizonte, esses mesmos políticos usarão de todos os artifícios da “velha política” para se perpetuarem. Vão apelar para o regionalismo barato, dizendo que “trouxeram recursos para a ponte tal” ou “reformaram a praça tal”, como se isso apagasse a covardia de não terem enfrentado os problemas estruturais do país. Usarão a máquina das emendas para sufocar a renovação, tentando impedir que novos nomes, com novas mentalidades, ocupem aquelas cadeiras.
O sistema é desenhado para a manutenção da mediocridade. Mas o poder final ainda reside no voto.

Cabe ao cidadão consciente, aquele que não se vende por uma benfeitoria pontual, dizer um sonoro “Basta!”. Precisamos rejeitar em definitivo representantes que tremem diante do Executivo ou que se escondem atrás de verbas parlamentares. Para o próximo ciclo, precisamos de critério rigoroso. Devemos olhar o currículo, a trajetória na iniciativa privada, a capacidade técnica e, sobretudo, a coragem moral.

Precisamos de gente que vá a Brasília para fiscalizar, para combater privilégios e para representar quem produz, e não para ser carimbador de repasses. Se quisermos resultados diferentes, precisamos escolher perfis diferentes. A omissão deles custa o nosso futuro. Que em breve, a indignação dê lugar à renovação qualificada.

O Paraná e o Brasil merecem deputados, não despachantes.