Pular para o conteúdo
O careca do STF

O careca do STF

careca

Lá se vai uma semana e tudo o que se vê no caso Alexandre de Moraes é diversionismo. Era ele, o tal xerifão da democracia, quem deveria ocupar os holofotes no palco da desfaçatez. A imprensa discorda. Quer transformar em contenda política. A Folha de S. Paulo fala em ‘Dark Horse’. O Estado de S. Paulo trata do afastamento do Careca do STF da coordenação do inquérito das fake news. O Globo mira no desvio de verbas de um deputado federal irrelevante, que é como parlamentar o que, segundo me dizem, foi como ator de novelas. Da Globo, por óbvio.

Livra-se a cara de Moraes, o paladino, por razões que resvalam nas ligações perigosas que o ministro do STF cultiva. Ele não é dono somente de um inquérito, que corre sob sigilo e é descrito como o livro do apocalipse. É muito mais. É o alcoviteiro da República, o mestre do despudor e do escárnio, o sábio da indignidade e da afronta.

A tal ponto, que a menção de que prepara uma defesa pública para explicar o inexplicável – o conluio gravado com o amigão Daniel Vorcaro – é suficiente para fazer com que o presidente do Supremo, Edson Fachin, balance para lá e para cá, denotando uma de suas características marcantes: o titubeio.

É risível ler o editorial da Folha, publicado ontem (10), dividindo em fatias as responsabilidades pela crise agônica do STF. Não se trata de crise qualquer. Nem de uma crise recente. Há uma década e meia assistimos, todos, o Supremo solapar princípios fundamentais com interpretações esdrúxulas. O resultado é um inquérito do fim do mundo. O resultado são R$ 131 milhões negociados com esposa do Careca (este, não aquele), o resultado é o fim da liberdade de imprensa, da liberdade de expressão e o renascer da censura. Pior: da autocensura.

Se há um protagonista dessa tragédia, ele tem nome e sobrenome: Alexandre de Moraes. Seria uma alegoria dizer que ele é culpado até a última raiz de cabelo, até porque ele não dispõe de nenhum. A semelhança com seu homônimo do INSS, contudo, é bem mais do que a indisponibilidade de melenas. Há quantias que aparecem ali e aqui, piscam, reluzem e atingem projeções discretas, a depender do humor das redações. Houve um segundo contrato com o escritório de Viviane Barci, esposa de Moraes, envolvendo R$ 40 milhões e um jato Legagy 650, os mesmos R$ 40 milhões e um helicóptero Airbus. Os mesmos R$ 40 milhões e R$ 10 milhões restantes para despesas de voo.

Lembremos que quando a jornalista Malu Gaspar, de O Globo, revelou algumas das mensagens amistosas trocada entre Moraes e o banqueiro fraudulento, a assessoria do ministro – e não o próprio, porque se recusa a descer do pedestal – tratou a notícia como uma ‘ilação’ maldosa e leviana. Deu em uma avalanche de textos declaradamente incriminatórios que envolvem Moraes, Toffoli, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues (ora reconduzido), e o notório Paulo Gonet.

Os jornais, sem exceção, assinalam que a decisão de Fachin em adiar a plenária do STF para o dia 15 foi sábia. Não foi não. Deu tempo para que Alexandre de Moraes prepare-se para o confronto. Em plena campanha eleitoral, com o país dividido, e o ‘herói da democracia’ – sim, me refiro ao Careca do STF – apanhado com a mão na botija, o resultado se torna imprevisível. Em tese, os ministros Moraes e Toffoli devem se declarar impedidos no julgamento marcado por Fachin. Se não o fizerem, e o presidente da corte deixar por si mesmo, será ele quem responderá pelo resultado. Fachin já foi tratado como um ministro ‘pusilânime e sem pulso’. Pusilânime é sinônimo de covarde. Sem pulso é autoexplicativo.

Leia outras colunas do Marcus Gomes aqui.