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O buraco

O buraco

o buraco

Na frente do prédio em que dou expediente apareceu um buraco na guia rebaixada. Com as chuvas, ficou mais profundo e levou à empresa a colocar cones para demarcar a área. O buraco não se deixou convencer, continuou a atrapalhar o trânsito. Um diretor saiu com sua camionete e levou com ele alguns cones. Alguém reclamou na prefeitura, mas confundiu cones com drones. O atendente achou que era dote, ou seja, trote. Drone voa, cone não tem asas para tanto.

Dias depois, retificada a reclamação, vieram uns operários de macacão laranja e ficaram dois dias mexendo na cova, digo, orifício, ou melhor, buraco. Jogaram areia, colocaram mais drones, isto é, cones, e foram embora.

O buraco continua lá, todo lampeiro. Enche-se de orgulho com os passantes parados em sua borda, a olhar perplexos para aquela mistura de areia com pedras, água e desleixo.
Ninguém quer incomodar o prefeito, tão atento aos problemas da cidade que chega a sair correndo pelas ruas para ver onde a prefeitura precisa atuar. Triste é ver que os percursos percorridos por Sua Excelência não incluem a Rua Visconde do Rio Branco, quase da esquina da Augusto Stelffeld.

Já pedi ao buraco que sinalize sempre que alguém se aproximar perigosamente. Ele, o buraco, está tão cheio de si, que exigiu ser tratado por senhor, carimbou as minhas palavras e mandou para a Secretaria de Obras. Mas lá, pelo que tudo indica, o buraco tem tanta influência quanto eu tenho com o Papa.

Menos mal que o primeiro sujeito a reclamar do buraco, aquele dos drones sem asas, ligou outra vez para a prefeitura. Dessa vez em altos brados, chegou a ameaçar o pobre atendente:

– O tempo ruge, berrou ele.

Ficamos aterrorizados. Que tipo de fera é essa chamada tempo, capaz de rugir desse jeito? Explicações urgem, urgentemente.

Imagem: gerada por IA

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