Revelations ocupa uma posição curiosa na trajetória do Audioslave. Em seu terceiro álbum, Chris Cornell (vocal), Tom Morello (guitarra), Tim Commerford (baixo) e Brad Wilk (bateria) já não soam como quatro músicos tentando descobrir o que fazer juntos. A banda havia desenvolvido uma identidade própria e, justamente quando essa identidade começava a ganhar novas possibilidades, sua história chegaria ao fim. Musicalmente, o disco representa uma ampliação do vocabulário do grupo. O peso continua presente, mas aparecem com muito mais clareza funk, soul, grooves sincopados, elementos psicodélicos e arranjos menos dependentes do hard rock tradicional. Foi lançado em 4 de setembro de 2006, com produção de Brendan O’Brien.
Revelations, a faixa-título, abre o álbum de maneira bastante significativa. Em vez de começar com um riff convencional, Tom Morello utiliza uma guitarra de caráter atmosférico, com efeitos que criam uma espécie de arpejo psicodélico. A sensação inicial é quase hipnótica. Então entra a banda. O riff principal é pesado, mas possui uma movimentação rítmica diferente daquela encontrada nos primeiros trabalhos da banda. Morello utiliza o instrumento não apenas harmonicamente, mas como uma fonte de ruídos, texturas e efeitos. Tim Commerford é fundamental para o resultado. Seu baixo não fica simplesmente dobrando a guitarra. Brad Wilk toca com precisão impressionante.Chris Cornell entra por cima dessa base com uma interpretação vigorosa. Sua voz mantém a aspereza característica.
Se a faixa-título apresenta o novo direcionamento, One And The Same o desenvolve de maneira ainda mais agressiva. O riff possui uma forte influência do funk rock. Morello trabalha com ataques secos e uma sonoridade que deixa bastante espaço para o baixo de Commerford. Wilk, por sua vez, mantém um groove poderoso e relativamente econômico. Cornell canta com uma intensidade crescente. O peso vem da interpretação e do timbre.
Sound Of A Gun é uma das canções mais densas do álbum. O riff possui uma qualidade quase ameaçadora, enquanto a bateria cria uma sensação de marcha pesada. A guitarra de Morello é menos ornamental aqui. Commerford novamente desempenha papel decisivo. Cornell assume uma postura vocal mais sombria. A letra trabalha com imagens de violência e poder, aproximando a canção do caráter político que aparece em outras partes do álbum.
Until We Fall reduz consideravelmente a intensidade. É uma das canções mais melódicas do álbum. A guitarra de Morello é mais atmosférica. Em vez de um riff dominante, ele utiliza acordes e texturas que criam espaço para Cornell. E aqui está um dos grandes momentos vocais do álbum. Cornell canta de maneira mais contida, utilizando sua voz como instrumento melódico.
Original Fire é a faixa que melhor traduz a dimensão funk e soul do álbum. O riff é extremamente rítmico. Morello utiliza a guitarra quase como um instrumento de percussão, criando uma relação muito estreita com o baixo. Wilk acompanha com uma bateria extremamente dançante. E Cornell entra como se tivesse encontrado exatamente o ambiente que precisava. Sua voz é mais solta, mais agressiva e ao mesmo tempo extremamente melódica. O refrão possui uma estrutura simples, mas muito eficiente.
Broken City é mais sombria. A guitarra de Morello aparece com menos agressividade, utilizando texturas para criar atmosfera. Cornell assume novamente o centro da composição. Sua interpretação é emocionalmente carregada, mas sem recorrer ao melodrama. Commerford mantém uma linha de baixo discreta e profunda. Wilk toca de maneira igualmente controlada. É interessante perceber como a banda consegue produzir intensidade mesmo quando os músicos estão tocando relativamente pouco. Esse é um sinal de maturidade.
Somedays retoma o groove. A canção possui uma estrutura relativamente simples, mas novamente se beneficia da interação entre baixo, bateria e guitarra. Commerford cria uma base muito presente. Wilk utiliza um ritmo que privilegia o balanço, enquanto Morello acrescenta guitarras que alternam entre riffs e efeitos. Cornell canta com um tom mais reflexivo.
Shape Of Things To Come recupera o peso. O riff de Morello é direto e poderoso. Aqui o guitarrista não precisa recorrer a grandes experimentações. O peso está na própria construção do riff. Commerford dobra e complementa a guitarra, criando uma parede grave. Wilk fornece a base perfeita. Cornell volta a utilizar sua voz com mais força. Morello utiliza o solo para introduzir novamente suas experiências sonoras.
Jewel Of The Summertime possui um groove extremamente marcado e uma atmosfera quase sensual. O baixo de Commerford é novamente um dos protagonistas. Wilk toca com precisão, deixando espaço para que baixo e guitarra dialoguem. Morello explora efeitos que remetem ao rock psicodélico, mas sem transformar a canção em um exercício experimental. Cornell canta com uma atitude diferente. Existe mais leveza e espontaneidade.
Wide Awake é uma das canções mais importantes do álbum do ponto de vista temático. A composição abandona parcialmente o caráter introspectivo e assume uma dimensão explicitamente política, relacionada às consequências do furacão Katrina e à resposta das autoridades americanas. A guitarra de Morello é relativamente contida, permitindo que a voz de Cornell fique em primeiro plano. A melodia é forte e possui uma característica quase folk em determinados momentos. Commerford e Wilk estabelecem uma base que mantém a canção em movimento sem torná-la agressiva demais. Cornell entrega uma das performances mais emocionais do álbum.
Nothing Left To Say But Goodbye é uma composição mais lenta, com uma atmosfera melancólica. Cornell está novamente no centro. Sua voz possui um tom de resignação que contrasta com a potência demonstrada em outras faixas. A guitarra de Morello funciona principalmente como acompanhamento e textura. Não há necessidade de um riff monumental. O baixo e a bateria sustentam a canção com extrema economia.
O encerramento é o momento mais simbólico do álbum. Moth começa com uma atmosfera relativamente delicada e desenvolve gradualmente uma sensação de libertação. A metáfora da mariposa atraída pelo fogo permite uma interpretação ligada à atração, perigo e dependência. Musicalmente, Morello trabalha com uma guitarra que parece estar sempre em movimento. Commerford e Wilk constroem uma base relativamente discreta, deixando a canção crescer. Cornell entrega uma interpretação especialmente emocional.
Revelations é um álbum que merece ser reavaliado. Na época de seu lançamento, o Audioslave já carregava o peso de suas próprias expectativas. O caminho escolhido foi menos óbvio, com mais groove, mais funk, mais soul, mais experimentação e maior participação dos teclados e das texturas, sem abandonar o peso. O peso do rock’n’roll. Do bom e velho rock’n’roll.
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