
A história do Athletico Paranaense é árdua. Desde que era Atlético em português castiço, fruto da união de Internacional e América, de sobrenome Futebol Clube, até nutrir o desejo confessável de se associar a Coritiba e Paraná para fundar um ‘Barcelona’ de camisa mostarda que fizesse frente aos grandes destas plagas nacionais.
Sei disso porque ouvi um podcast com entrevistas de Ocimar Bolicenho e Ernani Buchmann, ex-presidentes paranistas na era pré-derrocada do clube que, agora, é só derrocada. Se você é coxa-branca de quatro costados, portanto, arrepie-se!
Mário Celso Petraglia era o senhor das armas na ocasião e é senhor até hoje. Nos baixos e nos altos, ele estava lá, aparentemente intocável como nem Eurico Miranda – seu aparentado na persona e no estilo – jamais almejou.
Quando pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) abriram o baú de ossos do Coritiba e nele toparam com a lista de afiliados ao clube, entre eles Petraglia, poucos se admiraram.
Ao tomar posse do (e no) Athletico em 1995, logo depois do Atletiba da Páscoa (5 a 1 para o Verde), Petraglia saiu à caça de fusões. Cobiçava o patrimônio do Paraná, que vinha da solução concentrada de um sem-número de clubes (Pinheiros, Colorado, Ferroviário, Palestra Itália, Britânia, noves fora Combate Barreirinha, etc.), pensando em dar à capital paranaense um futebol de única cara. Se possível, a cara dele. Valha-nos.
Não se sabe onde Petraglia foi buscar essa inspiração. Talvez em Londres, mesmo local de onde importou a grama natural de Wembley que daria à Arena o toque inglês que faltava. Deu em piso sintético.
Naufragado o projeto na Vila Capanema e no Alto da Glória, o cartola esticou os tentáculos por aí afora e consta que alcançou até a Ferroviária de Araraquara, no interior de São Paulo, que transformou em local de engorda de craques, termo que a imprensa utilizou à época. A parceria chegou ao fim em 2017. Aparentemente, sem mágoas.
O Athletico vai bem, mas sofreu as agruras que só o seu xerifão poderia conceber com mudança de nome, mudança de escudo e quase com mudança de cores. Os tradicionais vermelho e negro em sei-lá-o-quê.
Em terceiro lugar no Brasileirão, colado no Flamengo, o clube é crocante porque é Mirassol ou é Mirassol porque é crocante? É a pergunta que fica. Quando parece pronto para deslanchar, o Athletico sofre desbragadas derrotas. Caso recente: o Vitória na Copa do Brasil. Ou encara riscos desnecessários no quase-empate com o Botafogo.
Morrer na praia, convenhamos, parece um pré-requisito atleticano. Há 25 anos agora o time luta, claudicante, para reconquistar o título do campeonato nacional. O gráfico trôpego incomoda Petraglia. Aos 82 anos, ele se ressente de não ser imortal (exceto em nossos corações, claro).
Apesar das negativas e dos desmentidos das negativas, o Athletico ruma para o modelo de Sociedade Anônima de Futebol enquanto a coisa não desanda. No balanço recente, o clube acusou R$ 52 milhões em caixa – um valorzinho micho nos dias atuais. Isso, claro, sem considerar a pendura da construção da Arena. A dívida com o governo do estado e a prefeitura de Curitiba é de R$ 590 milhões a serem pagos em suaves prestações anuais até 2038, data em que Petraglia apagará as velinhas dos 96 anos.
Enquanto esse dia não vem, é a filha quem parece dar as cartas. Oficialmente, ela está à frente de uma escolinha de inglês obrigatória para os jogadores da base. Extraoficialmente, dá pitacos nos núcleos de saúde e de desempenho. Coincidência ou não, os atletas do time principal têm recorrido a médicos particulares para curar lesões e mazelas. O que dizer?
Assim caminha a humanidade. Calçando chuteiras ou não.
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