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ERNANI BUCHMANN CABECA hojesc

Noite gelada

É a volta da idade do gelo, pensou o rapaz. O termômetro na parte de fora da janela, marcava um grau negativo – com vento. Tratou de se preparar para sair: camiseta, ceroulas, camisa de manga longa, malha de lã, calça jeans, meias grossas, botinas, japona, luvas, cachecol e boné.

Nas últimas 24 horas tinha comido só um pacote de cream-cracker, com um restinho de chá. Eram dez horas de noite de sábado, sabia que iria encontrar a Acrópole aberta. Fechou a porta do quarto e saiu da pensão.

Desceu a Rua XV, passou pela esquina da João Negrão procurando desviar do vento antártico que vinha direto de Ushuaia, e cruzou as transversais, desertas. Na Acrópole, só um casal de namorados trocando carinhos enquanto aguardava para lanchar.

O rapaz fez o pedido: uma fatia de pizza de muçarela e uma vitamina de frutas: maçã, banana e goiaba – “tem goiaba?”

Tinha. Mandou misturar um cálice de Cinzano ao leite e às frutas.

O pedido chegou. Mordeu a pizza e tomou dois goles do líquido grosso, o suficiente para seu corpo sentir a entrada das calorias. Entre beijos, o casal dividia um sanduíche e uma Coca-Cola. O corpo do rapaz reagiu à visão com uma ereção fulminante.

O vigor causado pela mistura calórico-alcoólica fez com que pagasse a conta apressado e ganhasse a rua. Voltou pela Rua XV até a Monsenhor Celso, tomou a Praça Tiradentes à direita para sair na Rua Riachuelo. Ali haveria alguma profissional trabalhando.

Do outro lado da rua, em frente à Circunscrição do Exército, guardada por um sentinela a bater as botas na calçada, estavam duas mulheres.
– Boa noite.
A mais nova atalhou:
– Noite ou instante?
– Instante.
– Quanto?
– 50 pelo hotel, 50 pelo serviço.
– Qual hotel?
– Aquele.

Ficou com ela – 20 anos, pensou – e cruzaram a Rua Carlos Cavalcanti. Na recepção, um imenso sujeito com corpo, cara e espírito de guarda-costas. Ela entrou na frente e subiu a estreita escada para o fundo da casa.
– 50, preencha e assine aqui – urrou o urso. Quarto 2, lado direito.

Os quartos eram de madeira. A temperatura estava boa, um aquecedor a gás garantia o calor pobre do ambiente. A mulher estava tirando a roupa, sentada na cama, de costas para ele. O rapaz deixou as roupas em uma cadeira. O trabalho levou algum tempo, eram diversas camadas a se desvencilhar.

Teria que recuperar a ereção, perdida nas negociações. Ela estava deitada de frente para ele. Levou a mão para afagar a barriga da mulher, levou um susto. Embaixo do cobertor escondia-se uma gravidez bem avançada.
– Quantos meses?
– 38 semanas.
– E você trabalhando?
– Preciso me preparar para o pós-parto. Vou ficar uns dois meses sem faturar e meu homem não perdoa.
– Menino ou menina?
– Menina, vai se chamar Elsa.
– Quem é o pai, seu gigolô?
– Não sei. Vamos logo, o instante não pode passar de 30 minutos.
– O que você faz na cama?
– Só papai-mamãe, não beijo na boca, não vou tirar o sutiã.

Ele concordou: o sutiã estava molhado do leite materno. A ereção voltou quando sua mão deslizou pelas coxas macias da mulher. Tirou os pensamentos dali, penetrou imaginando que era a sua Tércia, tão hábil nos manejos do sexo, namorada que o trocou por um saxofonista da noite, e gozou.

A mulher agradeceu, nela pulsava a ânsia de terminar a tortura profissional. Levantou-se devagar, de cócoras lavou-se em uma bacia no chão. Ele deixou os 50 combinados embaixo do relógio de pulso na mesa de cabeceira e saiu pressentindo que o gigolô era o homem da recepção: ele consultou o relógio ao vê-lo passar, o mesmo modelo quadrado que ela usava.

Na esquina, o sentinela continuava surrando as pedras da calçada. Não havia câmeras de segurança, talvez pudesse amansar um pouco as passadas – mas quem era ele, simples estudante universitário, saído de um encontro sexual traumático, para ditar ordens a um soldado?

Na Rua XV pegou a esquerda até dar na pensão. Queria um banho, um banho pela ‘mor de Deus’, tirar do corpo a sujeira incrustrada por aquele encontro infeliz.

Esfregou-se com a esponja de lavar de pratos, com força, muita força, depois com sabonete, muito sabonete, e nem assim conseguiu dormir.  A sujeira estava impregnada dentro dele.

Embora não fosse religioso, pediu perdão pela sobreposição dos instintos à razão, rezou três Aves Marias pela saúde da futura Elsa e de sua mãe, de quem não soube o nome, e dormiu.

O domingo amanheceu ensolarado, 5 graus às 10h, sem vento. Ele urinou e voltou para a cama.

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