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marcus gomes

Neymar para presidente da República

Foi Fernando Schumak, do canal Coxanautas (@coxanautasoficial), quem me chamou a atenção para o número de técnicos e jogadores que estão arriscando a sorte nas eleições vindouras. A expressão “arriscar a sorte” não é gratuita. Com esse mundão de bets patrocinando CRF, SEP, CFC, SCCP, CAP, SFC, ACF, BGT, ECV, PQP, CVV, PCC e demais siglas de times das mais diversas cores, inclusive o laranja do cadeião, combinar futebol com política é perfeito.

Vanderlei Luxemburgo é candidato ao Senado em Tocantins. Sim, o novo estado da federação que, creio, disputa a Série D dos latifúndios onde Judas perdeu as botas. Ao lado de Roraima, Rondônia, Piauí e Acre, este uma ficção até prova em contrário.

Na companhia de Luxa, estão Edmundo, o Animal (candidato a deputado federal), Luís Fabiano (estadual), Marcelinho Carioca (distrital) e os ex-atleticanos Washington “Coração Valente” e Perdigão “Gordão” (federal e estadual).

Na seara dos cartolas, aparece Marcos Braz, que era vereador no Rio quando mordeu a virilha de um torcedor do Fluminense e, agora, disputa uma vaga na Câmara Federal querendo morder mais. E torçamos para que seja algo estritamente republicano.

Se o esporte é tão visceralmente ligado ao futebol, por que não imaginar voos mais altos e mirar a presidência da República?

Com a miserabilidade do cenário político nacional, a polarização, a obviedade ululante e, literalmente, o debate vazio com candidatos em fuga, está na hora de clamar por um salvador da pátria. Você pensou, eu pensou, todos pensamos: Neymar Jr.

Quem melhor senão o ex-jogador, atualmente em atividade, que une o Brasil? Pense na cerimônia de convocação da seleção brasileira e a festa do amanhã no museu de ontem (ou será o contrário?).

Quem mais senão o filho de Neymar Pai para fazer a claque comemorar, em brado retumbante, o nome de um atacante lesionado ad eternum que jogou dez minutos em cinco jogos, bateu um pênalti, protagonizou um bate-boca vexaminoso com o goleiro quando a eliminação da seleção brasileira já estava sacramentada e, ainda assim, não riscou um tiquinho de seu verniz?

“Neymar, Neymar, Neymar” é o que se ouviu dentro e fora dos estádios e ainda se ouve, mesmo com as cenas histriônicas e delirantes do jogador. Cito a partida contra o Remo, porque recente, e o ataque de fúria no empate do Santos com o Mirassol pelo Brasileiro, em que a vítima foi a árbitra Edina Alves. Na Folha de S. Paulo, Tostão demorou uma eternidade de parágrafos para chamá-lo de “chato de galochas”. Eu já diria isso na primeira linha e com uma expressão mais adequada ao contexto.

Mas prefiro guardar esse sentimento patriótico para quando o craque for eleito chefe deste país do futuro e comandar o Brasil como nunca antes na história.

Perceba, caro leitor, Neymar, se candidato, terá bandeiras tremulando em cada esquina, e para isso não será preciso pagar ao cabo eleitoral dez mangos a diária mais um pão com mortadela. Por Neymar, os gritos serão verdadeiros, a fé será inabalável, e o voto — símbolo maior da festa da democracia — há de ser espontâneo, sem os cabrestos modernos que trocaram o par de sapatos e a dentadura por um cano na testa.

Com Neymar presidente, a pacificação estará sacramentada, e os cruzeiros marítimos regados a pagode e champanhe barata serão uma possibilidade. O novo presidente subirá e descerá a rampa do Planalto a bordo de seu helicóptero, chamará os ministros de parças — porque os parças serão nomeados para os cargos —, e o traje sóbrio e algo sisudo do governante será substituído por camisetas pretas, ternos brilhantes nos tons prata e dourado, tênis branco de marca, colares extravagantes e chapéus de cafetão com aquela indefectível pena decorativa arrancada de um pássaro exótico (provavelmente em extinção).

O Brasil, então, triunfará. Mais do que isso: vai alcançar o status de grife, como fez questão de registrar Neymar Sênior em documentário na Netflix.

Eleito à presidência — e acho que me repito —, o ex-jogador Neymar Jr., ora em atividade, garantirá a reforma do banheiro do Palácio do Planalto, o novo paisagismo dos jardins no entorno (transformados em campos de treinamento com grama natural), os pagamentos de transfer ban e a dívida pendurada, inclusive a pública, até o fim do mandato. Ou isso, ou a SAF.

Quanto a Neymar Pai, será nomeado ministro da Fazenda, mas exercerá influência poderosa sobre as demais pastas, com a última palavra em todas elas. Como todo presidente precisa de uma primeira-dama, a senhora Neymar Jr., ora em exercício, assumirá o posto, mas a rotatividade será sempre uma possibilidade.

Hoje dirigente do Maricá Futebol Clube, o técnico René Simões disse um dia, olhando para Neymar, que o futebol brasileiro estava criando um monstro. Criou, e ele vai muito bem. Quanto a Simões, pode ser incluído no inquérito das fake news por crime de lesa-pátria. O relator será o ministro Alexandre de Moraes. Bidu.

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