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Nem o humor nos salva

Nem o humor nos salva

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Leio a Piauí e só faço me preocupar. A revista mensal dirigida por João Moreira Salles – descendente da família que fundou o Itaú Unibanco – leva muito a sério o humor a favor. Não é um paradoxo. Está mais para um universo paralelo, bizarro, onde rir só vale para quem não se opõe. Não é coincidência, portanto, que o outro eu do Super-Homem nos quadrinhos habite um mundo ao contrário, seja o vilão, não o herói, e leve o nome justamente de Bizarro.

Chargistas que colaboram com a Piauí, que paga bem, e com os grandes jornais, que não pagam tanto, acompanham esse raciocínio. Os satirizados são os discordantes, divergentes, opositores. Estes são anomalias. Se você concorda, tudo bem. Você é normal.

Penso em Janja, a primeira-dama deslumbrada e viajada. Penso em Geraldo Alckmin, o picolé de chuchu sempre à espera de um aceno do chefe (um aceno que não vem). Penso em Janones, guindado a general do Exército de Lula, dando ordens — as mais esdrúxulas — aos apoiadores no WhatsApp. E nada disso parece risível?

A piada é a família Bolsonaro, é Trump, é Israel. Nunca Maduro, Putin e Maomé. Creio que qualquer traço ridicularizando os últimos pode desmascarar a faceta escandalosamente caricata de cada um deles. Por isso são intocáveis. Millôr Fernandes, que faria 103 anos em agosto, bem avisou que o papel do humorista (assim como o do jornalista) é ser oposição. Motivo óbvio: quando o humor é a favor deixa de ser humor e vira propaganda ou armazém de secos e molhados.

Fábio Porchat sabe bem disso. Há um ano, ele postou um vídeo ironizando o boicote da direita à marca Havaianas. A fabricante de chinelos havia usado Fernanda Torres em um comercial e brincado com a expressão “entrar no ano novo com o pé direito”. A atriz diz na peça publicitária: “O que eu desejo é que você entre com os dois pés, os dois pés na estrada, na jaca, os dois pés onde você quiser”. Crítica válida, sem dúvida nenhuma, até em razão de a direita ser chata de doer.

O problema é que Porchat gravou o vídeo na embaixada em Roma, onde surgiu como convidado. Daí as pedras vieram do outro lado, com suspeitas de uso de dinheiro público para custear a viagem do pançudo.

Outra de Porchat foi, primeiro, sair em defesa do humorista Léo Lins, cujo programa havia sido censurado pelo TJ de São Paulo, e depois recuar e sair pedindo desculpas a torto e a direito (esquerdo também).

Triste, muito triste. Mais ainda porque o humorista – se é que ele se considera assim – relativizou a liberdade de expressão, uma prática que certamente faria Millôr Fernandes, Ziraldo, Jaguar, Ivan Lessa, Paulo Francis e outros rodopiarem em seus respectivos ataúdes, seja lá onde descansem os seus esqueletos.

Para Freud, impor censura ao humor, ou impor-lhe limites, é justamente agir contra ele. O chiste, tal como Freud o descreve, usa um disfarce engenhoso para permitir que o recalque (a repressão de desejos hostis ou tabus) venha à tona sem que aquele que conta a piada sinta vergonha ou sofra punição social. É esse elemento central do humor que Porchat quer ver relativizado.

Quanto a Moreira Salles, o que dizer de um bilionário que anda por aí, no seu look amarfanhado chique, escrevendo manifestos contra seus pares – os demais bilionários – enquanto abastece seu virtuosismo financiando uma revista que prima e se orgulha do humor pró-governo? Santa Laerte Misericordiosa!

Admito. Dói bastante assistir a isso e constatar onde o humor tupiniquim foi amarrar o seu burro. Mas só dói quando eu rio.

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