
Bom saber que quando a corrupção abunda, como dantes já abundou, o tema mais comentado no país é o gênero de Erika Hilton. Indignado com a eleição da deputada federal do PSOL para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara, Ratinho Pai cuspiu fogo ao dizer que ela não é mulher porque não possui pênis.
Não tenho essa informação. Indaguei à inteligência artificial e nem mesmo ela quis entrar em detalhes específicos sobre procedimentos cirúrgicos ou anatomia privada. Paciência se foi emasculada. Paciência se não foi.
Quando perdeu os cabelos – todos eles – o ministro Alexandre de Moraes deve ter se consolado prematuramente com aquela marchinha carnavalesca que diz assim: ‘É dos carecas que elas gostam mais’. A ficha caiu depois. Quanto a Erika, talvez não saiba que os compositores Arlindo Marques Júnior e Roberto Roberti não se referiam exatamente aos calvos, mas sim a um órgão do corpo que ela pode ter ou não ter.
Efeito Orloff
Moraes tem mais com o que se preocupar. Depois de condenar Bolsonaro à prisão e ser cantado em prosa e verso pelos arautos da democracia, eis que ele pisa no tomate. Afirmei nesse espaço que Moraes poderia sofrer o ‘efeito Orloff’ e se transmutar no Sérgio Moro de amanhã. Não deu outra.
São tantas as semelhanças do Banco Master com a Lava Jato de ontem, inclusive no que refere a delações premiadas bombásticas, que até mesmo a imprensa pró dá mostras de que vai se mudar, de mala e cuia, para o lado oposto do espectro político.
Na CBN, o colunista jurídico Walter Maierovicht – que nunca foi pró – disse que é hora de o cidadão brasileiro reagir. Não se trata apenas de aprovar uma emenda constitucional com mandato para ministros, é preciso também que a Constituição se resguarde do ativismo político (e judicial) dos membros da alta corte.
A vitaliciedade, segundo ele, só poderia ser tolerável se os ministros ‘tivessem alguma dignidade e pudor e ao menos fingissem muito bem que recusam o papel de políticos’.
Maierovicht fala em plebiscito ou referendo. Eu acho que o Congresso basta. Uma PEC só é aprovada por 3/5 dos membros do parlamento em dupla votação nas duas casas. É representativo o suficiente.
Apocalíptico
Mas daí vem o jornalista Fernando Gabeira na Globonews e desce a borduna: ‘O Supremo devia acabar’. Foi o desfecho de um comentário anterior com octanagem idêntica: ‘Eu concluo que o contrato [de R$ 129 milhões com a esposa de Moraes] era uma fachada para o ministro proteger Vorcaro. Concluo mais: Alexandre de Moraes é funcionário do Vorcaro, isso pode me trazer problemas com o Supremo”, disparou.
Em condições normais, o ministro que se identifica como inquisidor do gênero Torquemada talvez classificasse o comentário como um incitamento golpista contra as instituições. Mas seus problemas são outros. A Polícia Federal teve acesso a uma troca de mensagens entre Vorcaro e Moraes, em que o banqueiro, dias antes de ser preso, pedia ajuda ao ministro.
Os holofotes da imprensa, por enquanto, estão direcionados ao ministro Dias Toffoli, cuja empresa em que é sócio fechou negócio milionário com um fundo ligado ao Master. Porém, Moraes não perde por esperar. Na troca de mensagens, Vorcaro pergunta: “Conseguiu ter notícia ou bloquear?” E depois: “Alguma novidade?”
Em sua defesa, Moraes negou ter sido o destinatário das mensagens e escapou pela tangente com aquela conversa manjada de que o STF estaria sob ataque por sua defesa da democracia.
Adeus confiança
O fato é que as suspeitas que pairam sobre a corte não são mais exclusivas de bolsonaristas desiludidos. Pesquisa divulgada pela Genial/Quaest, na semana passada, mostra que o Supremo anda mais sujo do que pau de galinheiro. Quase metade dos brasileiros diz não confiar na instituição.
Moraes, Toffoli et caterva tinham a esperança de que a Segunda Turma do STF abrisse as portas da cadeia para que Vorcaro respondesse em liberdade. Não foi o que ocorreu. Pressionados, os quatro membros do colegiado – o quinto é Toffoli que se declarou suspeito – formaram maioria para manter o banqueiro engaiolado. Votaram a favor André Mendonça (o relator), Luiz Fux e Nunes Marques. O decano Gilmar Mendes vota até o fim dessa semana, mas já não importa mais.
Preso, Vorcaro pode fechar um acordo de delação premiada com potencial para arrasar os Três Poderes. Lula manteve encontros oficiais e extra-oficiais com Vorcaro. Os presidentes do Senado e da Câmara, Davi Alcolumbre e Hugo Motta, respectivamente, têm ligações perigosas com o banqueiro e relutam em instalar a CPI do Master.
A pressão popular, no entanto, pode fazer com que mudem de ideia ou sejam tragados pelo escândalo. Quando julgar apropriado, Lula vai se sair com o clássico “eu não sabia de nada”. Talvez seja tarde demais. Enquanto esse dia não chega, ele encarregou Gleisi Hoffman, que é a caricatura de si mesmo, de apagar o fogo afirmando em rede social que ‘foi no governo do presidente Lula que a PF investigou e levou à justiça as falcatruas do Master. O resto é papo furado da extrema direita”.
Não é não. É conversa para nenhum boy da esquerda dormir.
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