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JAINE VERGOPOLEM

Nair Benedicto, a mulher que virou onça

Índios Arara, Altamira (PA), 1985. Interferência na fotografia realizada pela autora em 2013. Nair Benedicto.

Nair Benedicto virou onça muitas vezes.

E continua virando — agora no tempo da memória, onde as imagens seguem caminhando quando o corpo já não está.

Muito antes de atravessar a Amazônia por dentro, antes mesmo de compreender a floresta como organismo vivo e ferido, Nair já conhecia a metamorfose como forma de resistência. Quando a vida pesava, ela recorria às palavras do pajé Siã Huni Kuin — José Osair Sales — liderança do povo Kaxinawá.

Essa “lição-palavra”, conhecida entre povos indígenas, foi incorporada ao livro “Vi Ver – Fotografias de Nair Benedicto”, lançado em 2012. Não por acaso. O livro não é apenas um compêndio de imagens: é um percurso de transformação. Reúne mais de cinquenta anos de uma obra em que povos originários, a cultura amazônica e os territórios ameaçados ocupam lugar central — não como tema exótico, mas como compromisso ético.

Encontro de Altamira, Altamira (PA), 1989. Interferência na fotografia realizada pela autora em 2013. Nair Benedicto.

A fotografia de Nair nunca foi neutra. Ela fotografava como quem escolhe um lado. Em 1980, imagens suas passaram a integrar o acervo do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Em 2002, Tesão no Forró entrou para a coleção do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM). Reconhecimentos institucionais importantes, mas que jamais domesticaram seu olhar. Sua câmera sempre esteve voltada para o conflito, para a rua, para a terra ferida e para o corpo que resiste.

O passado — especialmente a violência da ditadura empresarial-militar — atravessou sua trajetória como uma dor persistente. Ainda assim, Nair não se fixou na ruína. Seu trabalho foi sempre um gesto voltado ao porvir. Ela dizia não estar satisfeita. E talvez essa insatisfação tenha sido a força que sustentou sua fotografia.

Ao longo da vida, diante do que há de mais perverso na humanidade, Nair Benedicto tornou-se ativista por necessidade. Fotografar injustiças foi também reagir a elas. Um gesto urgente. Para ela, o empobrecimento das relações humanas explicava, em grande parte, o abandono da Natureza. A devastação ambiental não era acidente, mas consequência direta de um mundo individualista, onde a lógica do acúmulo se sobrepõe ao cuidado.

Amazônia, desmatamento com motosserra, sul do Pará, 1982. Nair Benedicto.

Seu pensamento era claro: quando as pessoas aceitam que tudo exploda — o outro, a floresta, o rio — desde que não seja agora, instala-se o colapso. A fotografia de Nair denunciou isso muito antes de a crise climática ganhar nome e estatística.

Nair abraçou os espinhos. Feriu-se. Esperou. Virou cobra. Virou onça. Segurou o nada quando foi preciso — e ainda assim agarrou-se à vida, à terra, ao outro. Ela já partiu. Mas sua fotografia permanece em vigília. E cada vez que suas imagens são vistas, Nair Benedicto vira onça outra vez.

A fotografia, segundo Nair, é sempre ‘uma reação a uma provocação’, a maneira que ela encontrou para dar respostas a seus incômodos. Foto: Lela Beltrão/SUMAÚMA

Para aprofundar essa trajetória, leia a reportagem em www.sumauma.com