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Morreu aos 98 anos a atriz Laura Cardoso, um dos maiores nomes da dramaturgia brasileira. Laura faleceu na noite desta segunda-feira, 17, às 23h24 e a informação foi divulgada em seu perfil oficial no Instagram na madrugada desta terça-feira, 18.
A publicação que comunicou a morte homenageou a atriz e ressaltou a marca deixada por ela na cultura brasileira. “Nossa grande estrela se despediu de nós. Laura Cardoso estará para sempre em nossos corações. Obrigada por tudo, nossa amada e eterna Laura Cardoso”, diz o texto.
A atriz começou a carreira aos 15 anos e acompanhou de perto a transformação da dramaturgia brasileira, desde os tempos do rádio até a consolidação da televisão. Ao lado de nomes como Lima Duarte, Yara Lins, Lolita Rodrigues e Vida Alves, ajudou a formar uma geração de artistas que fez a transição entre os dois meios.
Autodidata, atriz brilhou no rádio, na TV, no teatro e no cinema
Paulistana de nascimento, considerava-se uma atriz autodidata, desenvolvendo a sua habilidade artística ainda adolescente, quando fez suas primeiras participações em espetáculos infantis da Rádio Cosmos, de São Paulo. No início, apresentava-se sob seu nome de batismo, Laurinda de Jesus Cardoso.
A escolha pelo nome artístico aconteceu justamente nos primeiros anos de rádio. “Foi um colega de rádio que achou que Laurinda não era sonoro. Então, ele me deu uma porção de nomes como Lana, Luna e quando falou Laura, eu disse: ‘Quero esse!’”, contou em depoimento ao programa Damas da TV, em 2013.
Aos 17 anos, já trabalhava em novelas da Rádio Tupi quando a emissora estava à procura de uma artista para atuar no teleteatro Tribunal do Coração, então dirigido por Vida Alves, em 1952. Entre dezenas de candidatas, foi a escolhida. Na mesma década, se consolidou no TV de Vanguarda, “um dos trabalhos mais sérios já realizados na televisão”, opinava, tempos depois.
Foi a atração que rendeu seu primeiro troféu Roquete Pinto, na categoria de Revelação Feminina da TV, em 1956, quando a TV Tupi ainda era sintonizada pelo canal 3. “Foi uma das experiências mais bem sucedidas de levar o teatro a milhares de pessoas. Encenamos Ralé, de Gorki, Depois da Queda, de Arthur Miller, além de algumas peças de Dostoievsky, Tenneessee Williams, com os mesmos cuidados que se dispensava às peças teatrais. O profissionalismo e a responsabilidade dos atores de teatro era grande e exaustivo. Nossa proposta exigia um estudo mais profundo do personagem, do autor e sua obra. Isso não ocorre atualmente. Com o videoteipe, qualquer pessoa pode representar”, contava Laura Cardoso ao Estadão, em 1980, sobre os primórdios da dramaturgia na TV brasileira.
Nos anos 1960, emprestou sua voz à personagem Betty na dublagem brasileira de Os Flintstones, a qual citava com carinho ao longo das décadas. Em relação às telenovelas, esteve em produções como Quando o Amor é Mais Forte, Gutierritos, O Drama dos Humildes, Rebeldes, A Última Testemunha, As Pupilas do Senhor Reitor, Ídolo de Pano e João Brasileiro.
No fim dos anos 1960, transferiu-se para a TV Record, onde ficou por alguns anos até retornar à Tupi. Sua última novela na pioneira emissora foi Gaivotas, em 1979. No ano seguinte, o canal sairia do ar. “Quando soube do fechamento da Tupi, tive uma crise no meio da rua. Era como se um parente tivesse morrido”, lamentou a artista na ocasião.
Surgia ali uma nova oportunidade: em 1981, Laura Cardoso fez sua estreia na Globo, como a personagem Alda, na novela Brilhante. À exceção de um breve período de retorno à Record, onde gravou Vidas Cruzadas entre 2000 e 2001, foi na emissora carioca que a atriz passou as décadas seguintes. “Artista é meio cigano. Fica dez anos aqui, depois vai jogar em outro time, volta ao anterior… É claro que eu gosto muito da Globo, fiquei 18 anos lá. Sempre fui muito bem tratada, amo meus colegas. Sempre é um pouco difícil, mas chega um certo tempo que você decide optar por isto ou aquilo. Ou financeiramente, ou porque você quer ficar mais na sua terra – a minha, no caso, é São Paulo”, explicava ao Estadão, durante o breve período em que ficou fora da emissora.
Na Globo, esteve no elenco de novelas marcantes como Fera Radical, Rainha da Sucata, Mulheres de Areia, A Viagem, Explode Coração, Esperança, Chocolate com Pimenta e Belíssima. Mais recentemente, o público deve lembrar de interpretações como a severa anciã Laksmi, em Caminho das Índias (2009), a dona de bordel Caetana, em O Outro Lado do Paraíso (2017). Em 2021, apareceu também nas reprises de Flor do Caribe, lançada originalmente em 2013, e Império, de 2014. Em 2019, foi chamada para fazer parte do elenco de A Dona do Pedaço, mas acabou substituída por Betty Faria e deu declarações sinceras à imprensa, reclamando do fato.
Pouco depois, foi chamada para dar vida a outra personagem, Matilde, idosa que sofria com o mal de Alzheimer e aparecia na reta final da novela. Com 92 anos à época, ficou algum tempo afastada das gravações por problemas de saúde. “Eu recebi o convite para fazer a novela. Não sei, de repente eles acharam que o papel ia me cansar, me esgotar. Eu não gostei. Eu queria fazer. Fizeram para o bem, para poupar o ator, a atriz… Mas acho que o ator não gosta de ser poupado. O artista quer trabalhar, quer fazer um papel, um personagem”, contava em entrevista ao A Tarde É Sua, à época.
“O teatro hoje está como ele sempre foi. Com coisas boas, coisas menos boas, coisas ruins. [TEM] gente que pensa que o teatro é uma banquinha de vender salsicha… Não! O teatro é um poço de cultura, onde você diz o que pode dizer, o que não pode dizer. O teatro é um pedaço sagrado onde os Deuses do teatro te olham e dizem: ‘Vai! Fala! Faz!’”, opinava Laura Cardoso em 2014, ao Provocações, de Antônio Abujamra.
Por uma questão financeira, a atriz focou o início de sua carreira em rádio e televisão. Sua estreia nos palcos profissionais ocorreu já aos 32 anos de idade. Conforme consta em reportagem publicada no Estadão em 12 de setembro de 1959: “Laura Cardoso interpretará Mary, de Plantão 21. Essa é a primeira vez que a atriz trabalha em teatro. Já fora, anteriormente, convidada pelo diretor Antunes Filho para viver a Rosemary, de Picnic. Em virtude de seu contrato na TV, porém, ela não pôde aceitar”.
A parceria com Antunes Filho se repetiria em outros momentos ao longo de sua carreira, como em Venha Ver o Sol na Estrada, em 1973, e Vereda da Salvação, nos anos 1990. Em entrevista à Folha de S. Paulo, em 6 de fevereiro de 2000, o diretor elogiava a atriz: “O resultado da Laura Cardoso, na Vereda da Salvação, de 93, foi extraordinário. O que ela fez me surpreendeu. Foi o melhor trabalho da vida dela, tenho certeza. A gente brigou muito, mas pouco a pouco eu fui levando.”
Laura Cardoso também esteve em diversas outras peças como As Criadas (1968), Volpone (1977), A Nonna (1980), Cerimônia do Adeus (1989), Vem Buscar-me que Ainda Sou Teu (1990), Outono e Inverno (2006) e A Última Sessão (2014).
Além de rádio, TV e teatro, Laura Cardoso também participou de vários filmes nacionais, a maioria deles já em idade mais avançada, dos anos 2000 em diante. Um dos principais destaques é sua atuação como a enfermeira aposentada Carmen, que passa por mudanças em sua relação com o filho Raí (Fransérgio Araújo) no longa Através da Janela, de Tata Amaral, grande vencedor do Festival de Cinema de Recife em 2000. Já em Terra Estrangeira (1995), de Walter Salles, interpreta uma senhora que acompanha o anúncio do confisco da poupança por Zélia Cardoso de Mello, ministra de Fernando Collor. Espantada, ela sofre um infarto e morre logo nas primeiras cenas.
O último papel de Laura Cardoso no cinema foi no curta-metragem Dona Rosinha, lançado em 2025. Aos 97 anos, a atriz interpretou uma idosa abandonada pela filha em um ponto de ônibus no interior de São Paulo.
Sua trajetória também foi narrada no livro Laura Cardoso – Contadora de Histórias, da Coleção Aplauso, da Imprensa Oficial, escrito por Júlia Laks. À época do lançamento, em 2010, a atriz refletia: “O ato de contar histórias é mesmo muito poderoso. Nessas horas, me sinto privilegiada por ser atriz. Tenho quase 70 anos de carreira e jamais escolheria outra atividade.”
Foto: Reprodução Instagram
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