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ERNANI BUCHMANN CABECA hojesc

Minhas ruas joinvilenses

joinville

Joinville, tempos imemoriais. Nasci na Rua Miguel Couto, mas ali fiquei de passagem. Logo fui acomodado no apartamento no andar de cima do casarão em que funcionava a União do Comércio & Indústria – Companhia de Seguros Gerais, seguradora do meu avô materno, Ernani Lopes, na esquina da Rua do Príncipe com Abdon Batista.

A Rua do Príncipe é referência. Não há quem não a conheça de ponta a ponta, com as transversais incluídas. Pode-se dizer que ela representava, nos tempos antigos, o núcleo central da cidade.

Da principesca via fomos para a Procópio Gomes, uma casa geminada, dividida entre os casais Arino/Lucília Buchmann e Carlos/Lya Cassou, duas das irmãs Lopes. São da Procópio Gomes minhas mais recônditas lembranças. A carrocinha puxada por um cabrito, comigo na boleia – geringonça montada pelo tio Cassou – a dificuldade em manusear uma torquês, a cerca de madeira aos fundos, o teco-teco que pousou à noite no campo de futebol na esquina com a Rua Plácido Olímpio, o rádio da vizinha em frente a tocar músicas religiosas nos sábados e domingos à tarde para desespero da minha mãe e, acima de tudo, a boa convivência com a família Zimath, moradora no outro lado da rua, também na esquina com a Plácido Olímpio.

Cinco anos depois, nos bandeamos para a Rua Otto Boehm, em 1954. Ali morreu Getúlio Vargas, uns dias depois do meu aniversário. Foi o que mais marcou nossa passagem por aquela casa, de costas para o morro, quase em frente à usina de leite. O suicídio de Getúlio era anunciado a cada minuto, durante o dia inteiro, pela Rádio Difusora, em cadeia com uma emissora do Rio de Janeiro.

Foram oito meses ali, até meu pai comprar a casa da Rua Lages, a tempo de me matricular no Grupo Escolar Germano Timm para cursar o primeiro ano primário. Eu ia de carona na bicicleta paterna, ou, a partir do segundo ano, a pé, usando sapatos. A maioria dos colegas vivia descalço, meu sonho de desconsumo – vá entender a cabeça de uma criança.

Ao terminar o quarto ano, por não ter idade suficiente para passar ao primeiro ano do ginásio, cursei o quinto ano no Colégio Bom Jesus. Era uma facilidade o caminhar até o colégio. Da João Colin entrava-se em um beco à esquerda na altura da Rua dos Ginásticos e, bingo, estávamos nos fundos da igreja luterana e ao lado do colégio.

No fim daquele ano de 1959, meu pai trouxe a família para Curitiba, onde seria gerente-geral da Companhia Comercial de Seguros, ele que havia seguido a profissão do sogro.

Mas a rua com que mais me idêntico em Joinville é a Sete de Setembro. Ali moraram meus avós, minhas tias, tios e primos. Frequento aquelas casas, de números 96, 117 e 131, desde o berço. Hoje, já sem avós, tios e tias, de vez em quando faço uma visita ao primo e doutor José Carlos Cassou, em seu consultório na antiga casa do velho Ernani Lopes.

Ter casas e ruas na memória afetiva é afagar o passado. Transitar por elas é um privilégio, que faço questão de exercer.

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