Correspondente na Coreia do Sul e Japão durante a Copa de 2002, escapei até quando pude dos bastidores da seleção brasileira. Tudo para evitar Galvão Bueno na sala de imprensa.
Eram 8 horas da manhã em Ulsan, a cidade-sede do Brasil durante a fase classificatória, 8 horas da noite no Brasil e o Jornal Nacional entrava com as notícias frescas da competição.
Galvão reclamava do atraso de Falcão (ex-jogador e comentarista). Galvão reclamava do editor-chefe Sidney Garambone. Galvão reclamava do vento, do sol e de qualquer coisa que alterasse seu penteado, inclusive a gravidade.
À tarde, nos treinos da seleção, ele acendia um charuto fedido e dava longas baforadas. Quando alguém protestava, e isso era comum, ele reagia. ‘Vocês não sabem o que é bom’. Ninguém sabia.
A longevidade do locutor na Globo só pode ser explicada pela audiência. Em chatice, Galvão é hors-concours. Mais chato do que Faustão, Huck, Marcos Mion, Ivete Sangalo, Luiz Carlos Jr. e Pedro Bial. Ó Deus, livrai-nos dos chatos.
Onde está você?
No JN, William Bonner adotara um bordão: ‘Onde está você, Fátima Bernardes?’ E a jornalista, então casada com o âncora do telejornal de maior audiência no país, dominava a cena. Era admirável e punha Galvão no chinelo.
Antes do início da Copa e nos intervalos entre os jogos eu rodava a cidade à cata de notícias. Falar de futebol pra quê?
Meu foco eram as pessoas e seus hábitos. Os coreanos riam tímidos ao meu redor. Os adultos fumavam muito – as campanhas antitabagismo não comoveram a Ásia – e tinham o péssimo costume de usar os cinzeiros como escarradeiras. Os jovens vestiam roupas largas e sapatos absurdamente grandes e pontudos. Freud explicaria a compensação.
Antes da Copa, a notícia era o totó ao molho pardo. E, de fato, havia restaurantes especializados em carne de cachorro. O intérprete dizia que os pets eram criados em fazendas e abatidos no estilo kosher. Sem crueldade. Claro que era conversa.
Fui a uma feira livre, idêntica à brasileira, e lá me deparei com cães engaiolados. Em algumas regiões do Brasil, as galinhas podem ser mortas e depenadas na hora, ao gosto do freguês. Substitua a ave por um cachorro e a cena é a mesma. Mata-se a pau.
Efedepê
Protestos contra o consumo de carne de cachorro rodaram o mundo às vésperas do torneio. Isso deixou os donos de restaurantes precavidos. Fui a três deles. No primeiro, a câmera fotográfica e o bloquinho de notas bastaram para impedir a entrada da reportagem. No segundo, o dono nos expulsou com ameaças e xingamentos. Antes, eu tentara entrevistar um dos clientes. O intérprete se recusou a traduzir os palavrões coreanos, mas aposto que em nada diferiam do nosso efedepê habitual.
Quando, enfim, conseguimos ser aceitos, fui incapaz de digerir sequer um fiapo. A visita à cozinha, pouco antes, não me caiu bem. Pensei no provérbio: ‘Se as pessoas soubessem como são feitas as leis e as salsichas, elas não dormiriam à noite’. Foi o meu caso.
O cheiro de sangue, alho e cebola e a visão da carne escalpelada depositada em uma bacia que nunca viu sabão era difícil até para estômagos menos exigentes. E eu vim do rolmops e a ele retornarei.
De qualquer forma, saí na foto segurando nos palitos uma pequena tira de carne cozida, que viera acompanhada de um sem número de pimentas e molhos. Tudo bom, tudo bonito, mas não para mim. Ao meu lado um coreano, sorridente, engolia os nacos com apetite. Olhei para as suas meias, porque na Coreia também se tira sapato, e pensei na carne. Então olhei para a carne e pensei em chulé. Sim, eu poderia comer e fazer festa, comer e abanar o rabinho, comer e levantar a patinha. Preferi não comer e me fingir de morto. Au au.


