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MARCUS VIDAL CABECA hojesc

Metallica redefine o heavy metal

Master Of Puppets é o terceiro álbum de estúdio do Metallica e um momento de consolidação. A banda afia sua técnica thrash sem abrir mão da dimensão épica das composições. O álbum resume o encontro entre velocidade, precisão e escrita de arranjos, imprimindo vozes graves e timbres orquestrais que ampliam cada canção. James Hatfield (vocais e guitarra), Kirk Hammett (guitarra), Lars Ulrich (bateria) e Cliff Burton (baixo), que, infelizmente, faleceria na turnê do álbum, redefiniram o heavy metal da segunda metade da década de 80. Seu lançamento foi em 3 de março de 1986 e foi produzido por Flemming Rasmussen e pela própria banda.

Master Of Puppets metallica

 

O álbum começa com um dedilhado acústico breve que se transforma, em poucos segundos, num motor de riffs incendiários. Battery é uma lição de dinâmica. A introdução calma cria suspense, e a explosão que vem depois ganha impacto. A canção é pura energia concentrada, com versos curtíssimos, refrões que funcionam mais por impacto rítmico do que por melodia cantável, e uma sequência de riffs que empurram sem parar. O solo de Kirk Hammett aparece como chama que corta por cima do muro de guitarras rítmicas.

Master Of Puppets, a faixa-título, é o coração técnico e temático do álbum. Musicalmente é uma estrutura quase em camadas: introdução melódica, passagem thrash, seção instrumental com andamento cadenciado e retorno ao riff principal. O trabalho rítmico é notável. Liricamente a canção é uma alegoria poderosa sobre controle. Cliff Burton contribui com linhas de baixo espetaculares. O middle section (a passagem que desacelera e vira quase marchante) é uma obra-prima. Deixa a canção respirar, antes de dissolver tudo em um retorno arrasador.

Em The Thing That Should Not Be a banda revela suas influências mais sombrias. A canção tem um peso monolítico, riff central em tom grave e uma sensação de soco no estômago. Há uma construção que flerta com o doom metal, com as guitarras trocando frases escancaradas e a bateria de Lars marca o compasso de modo quase ritual. James Hetfield opta por fraseios falados em vários pontos, ampliando o clima de ameaça. A letra bebe no imaginário de horror cósmico (ambientes hostis, entidades indescritíveis), e a instrumentação acompanha essa sensação com eco, reverb largo e camadas de guitarra que empilham sombras.

Welcome Home (Sanitarium) é um dos extremos emocionais do álbum. Começa com uma introdução acústica suave e melancólica que se transforma progressivamente em seção elétrica tensa e, finalmente, em um refrão explosivo. A arquitetura da canção é de construção dramática. É quase uma mini-sinfonia em três atos. É um retrato claustrofóbico: loucura, confinamento e perda de liberdade. Musicalmente, a banda usa contrastes de dinâmica para traduzir desespero e revolta. O solo de guitarra aqui é tanto melódico quanto cortante, extraindo do tema principal uma versão furiosa.

Disposable Heroes abre com um riff marchante e militar, versos curtos, cadência quase mecânica e letras que criticam a máquina de guerra. As mudanças rápidas de compasso e as acentuações de bateria tornam a audição desconfortável na medida certa. O solo de Hammett corta como lâmina. Cliff adiciona textura de baixo que, novamente, não é apenas sustentação harmônica, mas voz própria.

 

Menos longa que outras, Leper Messiah é rápida, cortante e com arranjo mais direto. O riff principal é quase punk, mas com a densidade técnica do thrash. A letra ataca a hipocrisia religiosa e os falsos profetas, metáfora para líderes que lucram com a fé. Sonoramente a faixa é concisa. Não desperdiça notas. Cada aceleração tem objetivo e cada quebra volta com força. Aqui, a parede sonora é densa, mas compacta.

Ponto alto instrumental do álbum e tributo à musicalidade expansiva do quarteto. Orion é onde Cliff Burton brilha de modo quase solista, com linhas de baixo melódicas e harmonizações que conferem caráter orquestral à peça. A composição tem seções contrastantes, passagens pesadas e cadenciadas, interlúdios limpos com riffs melódicos e solos sensacionais. É um exercício de texturas: camadas de guitarra, efeitos e mudança de dinâmica.

 

Damage, Inc. fecha o álbum com riff cortante, andamento implacável e uma sensação de carnificina sonora. Mostra uma agressividade mas com sensação de maturidade conquistada. Arranjos trabalhados e técnica mais cristalina. É a canção que termina o ciclo de narrativas sombrias, críticas e reflexões com um soco final. O solo é vertiginoso e a bateria de Lars é pesadíssima.

A grande lição de Master Of Puppets é o uso da dinâmica como instrumento composicional, com pausas, desacelerações e partições limpas. O baixo não é mero preenchimento, é um elemento melódico que expande o espectro harmônico da banda. O álbum tornou-se referência não só no thrash metal, mas na música pesada em geral, por demonstrar que agressividade pode caminhar junto com sofisticação composicional. É uma obra-prima do heavy metal. Do rock’n’roll. Do bom e velho rock’n’roll.

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