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maria do rocio vaz cabeca

O sussurro das flores caídas

flores

Caminhadas por aí podem render boas vivências, pouco importa a motivação. Dia desses saí para o parque. Ora lenta, como quem anda de tico-tico, ora com pressa, acelerando um Fórmula 1 na pista. Fugia, não sei de quê, queria chegar, não sei aonde.

Sozinha. Só. É preciso.

Enquanto o corpo trabalha, a mente, indomável, não para. Briguei comigo mesma, com e sem motivos. Encrenquei com muitos, dentro da minha cabeça, com motivos de sobra. Que cansaço… que quentura.

A tarde caía e a grama fresca aliviou aquela febre.

Relutei, mas fiz as pazes com todos os fantasmas. Então libertei-me. Sentei na escada, aquietei minhas sombras, deixei apenas a brisa escolher as folhas que ficariam perto.

Subi um monte, ofegante, desafiando a asma. E desci correndo, na esperança de escorregar, rolar pelo mato, cair sentada em algum lugar que me ralasse apenas os joelhos. Ou virar estátua de sal para nunca mais olhar para trás.

Mas nada disso aconteceu. Aproveitei o embalo merecido, com o vento que descabela e inevitavelmente faz sorrir. Quase voei, feito menina. Quem disse que a felicidade não é alada?

Senti o fôlego – e a falta dele. É isso que nos faz querer viver.

Passos adentro de uma clareira, vejo o chão coberto de flores. É o fim do dia. Maravilhada, paro. Não piso. É solo sagrado. Ainda perplexa, escrevo com os olhos, gravo a cena, alguma coisa acontece no meu coração. Posso ouvir o sussurro ao caírem bem perto de mim: as flores grandes rosa-magenta.

E aquela queda silenciosa não significava o fim, pelo contrário. As pétalas amadurecidas, vividas, meio coradas, meio desbotadas – deixadas para trás, pisadas, entristecidas – ainda fazem parte de um fenômeno orquestrado pelo Criador. Será?

No momento em que um botão se abre e aparece a flor, ela está pronta para a polinização, realizada por insetos, vento ou pássaros. Quando isso acontece, pode ocorrer a fecundação. O ovário da flor começa, então, a se transformar em fruto: as sementes se formam dentro dele.

Nessa fase, muitas delas murcham e caem, porque sua função já foi cumprida. O cabinho enfraquece e se desprende. O que acontece depois depende da espécie: as pétalas tombadas se decompõem no solo, virando nutrientes, enquanto a árvore já começa a formar frutos no lugar da flor.

Percebo o significado da atmosfera ao meu redor. Sou trespassada pelo tempo. Um milagre já aconteceu. Outro está acontecendo.

Olho elas ali. Mortas? Nada.

Enquanto houver matizes contrastando com a lama escura, elas contarão história. Enquanto alguém as admire, serão a tela, o retrato, o tapete, o crochê, o manto… de esperança cor-de-rosa, debaixo da luz enfraquecida que elas nem precisam para existir.

Vestem-se de glória, da honra que a vida lhes concedeu, e assim, até virarem pó, para onde voltarão.

Como flor madura, que não conta primaveras, não digo nada. Libero o tempo agarrado na concha das minhas mãos.

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