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MARCUS VIDAL CABECA hojesc

Glenn Hughes: A Voz do Rock

No início dos anos 2000, Glenn Hughes já havia consolidado uma trajetória notável: ex-baixista e vocalista do Deep Purple, ex-integrante do Trapeze, colaborador de artistas como Gary Moore, Tony Iommi e Joe Lynn Turner, e dono de uma carreira solo intensa e eclética. Depois de incursões por territórios de funk, soul e hard rock melódico nos anos 90, Songs In The Key Of Rock, seu nono álbum solo, surge como um álbum de reafirmação, uma homenagem explícita às suas raízes dos anos 70, mas filtrada por maturidade e vigor. Acompanhado de JJ Marsh e Jeff Kollman (guitarras), Gary Ferguson e Chad Smith (bateria), Ed Roth (teclados) e o próprio Hughes no baixo e vocal. O resultado é um álbum que equilibra força, melodia e técnica.

Songs In The Key Of Rock Glenn Hughes

 

O álbum abre em alta voltagem. In My Blood é um hard rock vigoroso, guiado por um riff de guitarra setentista, grooves densos de baixo e uma performance vocal de tirar o fôlego. Glenn canta como se estivesse exorcizando algo, alternando entre tons roucos e gritos melódicos limpos. O refrão é explosivo e a ponte tem um toque psicodélico que evoca o Deep Purple de “Burn”, mas com modernidade.

Mais groovada e funky, Lost In The Zone traz o lado soul de Glenn à tona. O baixo caminha solto, o refrão tem balanço. As guitarras exploram riffs sincopados. A interpretação vocal é soberba. Hughes alterna suavidade e poder com controle total. É uma das faixas que melhor representam o conceito do álbum, o rock filtrado pela alma negra da música americana.

 

Gasoline reacende o motor do hard rock pesado. A batida é seca e a guitarra de JJ Marsh traz um riff direto. A voz de Glenn soa raivosa, carregada de peso. O refrão, com o verso “Gasoline, burning in my soul”, é puro deleite.

 

Aqui o tom é espiritual. Higher Places é dedicada a John Bonham, baterista do Led Zeppelin, e a homenagem é sentida, não apenas na letra, mas no clima épico e emocional da faixa. A canção mistura atmosfera mística e arranjo grandioso: camadas de guitarra, teclados etéreos e um refrão que cresce até o clímax. Hughes canta com reverência, mas também com intensidade; é como se ele estivesse conversando com o espírito de Bonham e, por extensão, com o passado do rock.

Título provocativo, mas execução refinada. Get You Stoned tem um groove irresistível, meio funk-rock, meio blues, com teclados vintage e baixo ritmado. O refrão é sensacional e o vocal brinca com falsetes e murmúrios, lembrando o lado mais sensual do funk setentista. A bateria arrasadora fica a cargo de Chad Smith do Red Hot Chili Peppers.

Written All Over Your Face é a faixa mais longa e uma das mais emocionais do álbum. É uma power ballad em forma de soul-blues, que cresce com intensidade controlada até se tornar uma catarse. O início é delicado, quase em clima de lamento. O refrão, entretanto, é arrebatador, e Hughes entrega uma das performances vocais mais comoventes de sua carreira. O solo de guitarra é cheio de alma, sustentado por uma harmonia que mistura R&B e classic rock.

Standing On The Rock é um rock direto, de espírito positivo. A batida é precisa e cheia de energia e o riff é simples. A letra fala de resiliência e fé pessoal. Hughes, que superou vícios e crises, canta sobre estar “em pé sobre a rocha”, firme apesar das tempestades. Há ecos de gospel rock na forma como o refrão se repete em coro, e o groove mantém a pulsação viva.

Courageous traz um clima mais atmosférico e introspectivo. A produção é rica em texturas, guitarras limpas, teclados etéreos e baixo profundo. A voz de Glenn é quase sussurrada nos versos e ganha força no refrão. A canção fala sobre a coragem de ser vulnerável, e há um tom confessional genuíno. É um ponto de calma e profundidade no meio do álbum.

Logo de início, “Secret Life” se apresenta com uma linha de baixo marcante e cheia de groove, típica da assinatura de Hughes, que une sua herança do funk e do soul ao vigor do hard rock. A voz de Hughes é o ponto central aqui, alternando entre tons suaves e explosões de potência controlada. Os arranjos de guitarra são notáveis, cheios de camadas sutis e efeitos psicodélicos, que dão um clima nebuloso e ao mesmo tempo elegante à faixa.

 

 

The Truth é rock direto com groove firme. O título encontra eco numa letra sobre libertação interior e honestidade consigo mesmo. O refrão é marcante e o solo curto, mas expressivo, injeta blues e paixão. Hughes canta com autoridade, como quem fala de algo vivido.

Um momento mais leve e melódico. Wherever You Go traz o romantismo e o lirismo típicos de Glenn. A melodia é sensacional, o refrão tem sabor de clássico pop-rock e o arranjo é limpo, com teclados preenchendo o ambiente. O solo de guitarra é lírico e a voz suave, porém poderosa, mostra a maturidade de um cantor que domina cada nuance emocional.

Songs In The Key Of Rock é mais do que um álbum de hard rock: é uma declaração artística e espiritual. Glenn Hughes mostra-se em plena forma, combinando técnica vocal de elite com profundidade emocional rara. O álbum equilibra peso e groove, introspecção e exuberância, revisitando o passado com frescor. Cada faixa soa viva, tocada por músicos de verdade, com suor e coração. Musicalmente, é um ponto de convergência: o hard setentista do Deep Purple, o funk do Trapeze, e o soul espiritual que sempre foi o centro da alma de Glenn Hughes. A Voz do Rock. Do bom e velho rock’n’roll.

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