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O império contra-ataca

O império contra-ataca

O presidente do STF, Luiz Edson Fachin, pode deixar um registro digno na história se mandar o inquérito das fake news para as calendas. Instaurado em 2019 por decisão regimental de Dias Toffoli, o inquérito se transformou em uma arma nas mãos de seu relator, o notório Alexandre de Moraes.

Por meio do inquérito, Moraes acusa, julga e manda prender. Faz mais: determina ações de busca e apreensão, quebras de sigilo, promove devassas e transgride princípios basilares da Carta Constitucional, como a liberdade de expressão e de imprensa.

Abancado há quase sete anos em uma espécie de Ministério da Verdade — que, na ficção orwelliana, é exatamente o contrário —, ele usa o inquérito para intimidar e coagir seus detratores e inimigos.

Pego com a mão na botija, trocando mensagens nada republicanas com o banqueiro fraudador Daniel Vorcaro, Moraes partiu para o ataque.

Usou a condição de relator do inquérito das fake news para denunciar o ministro André Mendonça, que fez subir o sigilo das investigações sobre o Banco Master. O inquérito também é chamado de “fim do mundo”. Contém milhares de páginas, corre em segredo há quase oito anos, lista mais de 200 nomes e abarca o apocalipse. Dos outros.

Moraes está fulo porque o colega o deixou a nu. Revelou-se o que todos já suspeitavam: um democrata de fancaria, dado a mimos, viagens para os filhos, contratos milionários para a esposa e tudo o que a vida pública pode oferecer, desde que usada pada engordar o patrimônio pessoal.

Em resumos biográficos, Moraes é grafado como ex-político. Correção: Moraes é político. De carreira. A palavra, aliás, é o radical do substantivo carreirismo e sinônimo de arrivismo.

Promotor por curtos onze anos — de 1991 a 2002 – , o ministro saltou lépido para a política, nomeado para a Secretaria da Justiça no governo de Geraldo Alckmin e, depois, para a Secretaria Municipal de Transportes na prefeitura de Gilberto Kassab. Consta que, nesse período, foi supersecretário e, além de assumir o controle de outras pastas, foi também o responsável pelo serviço funerário da capital paulista. Daí o seu ar funéreo, a sua beca de Darth Vader e a aparência de Lex Luthor em seus dias ruinosos.

Que tenha chegado ao ápice pode ser considerado um golpe de sorte. Foi mais do que isso. Em curtos 15 anos, o paulistano torcedor do Corinthians foi nomeado ministro do STF por obra e graça de Michel Temer. Os percalços, se é que ele os enfrentou, não lhe custaram nada além dos fios de cabelo. Que ele agora exiba uma lustrosa careca pode ser considerado um estilo. André Mendonça reparou essa falha instalando um topete. Fux o precedeu. Moraes achou por bem privar-se desse gesto de vaidade. Todos sabem, ela mora em outro lugar.

O ministro do STF contra-atacou um dia depois de a troca de mensagens amistosas e interesseiras entre ele e Vorcaro escalar o noticiário e bater à porta do diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e de Paulo Gonet, o Procurador-Geral da República. Gonet deve entrar em breve para o livro dos recordes. Foi ele o responsável por redigir, em 1 hora e meia, um documento pedindo a nulidade do relatório da Polícia Federal e acusando Mendonça de mandar investigar um membro do STF sem a prévia autorização da Corte ou do Ministério Público.

Mendonça não mandou investigar o colega. O nome de Moraes surgiu no curso das investigações do Banco Master. É de praxe. E tem balizamento legal. A narrativa de Gonet, porém, é outra. Escudado por Moraes, de quem é amigo próximo, ele irá sustentar a nulidade do relatório quando o caso for analisado pela Corte, ignorando, convenientemente, o fato de que a investigação de ofício, agora desencadeada contra Mendonça, gira no âmbito das fake news, onde, ao que parece, as salvaguardas estão garantidas. Veremos.

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Em 5 de dezembro de 2025, o jornal britânico Financial Times elegeu Alexandre de Moraes como uma das 25 pessoas mais influentes do mundo, na categoria ‘Heróis’.

“Infeliz é a nação que precisa de heróis”, escreveu Bertolt Brecht, dando voz a um de seus personagens na peça A Vida de Galileu.

O Brasil é uma nação infeliz.

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