Pular para o conteúdo
marcus gomes

A seleção é um estudante vagabundo

Diferentemente da política, no futebol é possível rir. No caso brasileiro, rir de si mesmo. Carlo Ancelotti convocou Neymar Jr. com festa na arquibancada do Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Não há explicações para tal — salvo todos os motivos.

Da torcida idólatra aos patrocinadores ansiosos, como escrevi anteriormente, a confirmação do jogador na lista dos 26 foi cercada de absolutamente nenhuma expectativa.

Trôpego, com uma perna só, de tipoia ou com o pescoço preso a um cone, o meia estaria na relação do técnico italiano de qualquer jeito. Dizem que, mesmo com sua fama internacional, Ancelotti submeteu-se à vontade da CBF, como já haviam feito o longevo Tite — à frente da seleção em 2018 e 2022 — e os ligeiros Fernando Diniz e Dorival Jr. Pouco importa.

A turba gritou do lado de fora do museu e ergueu faixas e bandeiras em apoio à convocação do atleta de parcos 15 jogos e quatro gols atuando pelo Santos nesta temporada. Na falta do pão, Neymar não foi o brioche, mas certamente o circo.

Diga-se que o barulho se repetiu também do lado de dentro do museu. A cerimônia não foi restrita a profissionais da imprensa e do futebol. Estrelas globais estavam lá. Obtusos globais também. Cito Huck porque as câmeras miraram nele. Mas havia outros, muitos outros.

Risco de apupos

Um jornalista especulou qual seria a reação da claque de Neymar se ele fosse riscado da lista. Ancelotti seria vaiado? Provavelmente sim.

Contudo, a novela não acaba aqui. A pressão, de ora em diante, será pela escalação do jogador na equipe titular. Contra a Escócia, vá lá, porque o adversário bebe mais do que joga — e, às vezes, só mesmo bebendo.

Mas há outro obstáculo ainda maior do que a presença de Neymar. A seleção não tem esquema de jogo. É um estudante vagabundo que ficou comendo moscas durante três anos e que agora precisa estudar toda a matéria em 15 dias para fazer o Enem (copyright Paulo Vinicius Coelho).

Em 2002, a seleção chegou à final muito em razão das eliminações precoces. Lembremos que Argentina e França foram descartadas na fase classificatória, e a Espanha deu adeus nas quartas de final depois de um empate sem gols com a Coreia do Sul — jogo decidido nos pênaltis.

16 avos de final

Agora, além da fase classificatória, o Brasil terá que encarar um novo mata-mata criado depois que a Fifa ampliou o número de equipes para 48. Antes das oitavas de final, teremos a fase de 16 avos. Se a peleja antes era de sete jogos, a nova tabela da Copa acrescenta mais um.

Ora, pois, pois. O esforço exigido das seleções num cenário esportivo como esse se adequa à expressão ‘pernas, pra que te quero’, que descreve a necessidade de uma fuga desesperada ou de uma corrida em alta velocidade. Neymar não combina com essa expressão.

Ele não vai correr, não vai defender, não vai marcar. Quando muito, dará o ar de sua graça na cobrança de faltas próximas à área e nos escanteios. E não contem com o jogador nos pênaltis decisivos. Assim como na partida contra a Croácia, em 2022, Neymar deixou evidente que o principal batedor não é necessariamente o primeiro da fila. Nesse caso, aliás, ele talvez prefira nem ser incluído na relação dos convocados.

**

O caro leitor há de perdoar os erros cometidos na coluna de segunda-feira, 18, ainda que sejam imperdoáveis. Deixei um parágrafo truncado e troquei Jesus por Genésio ao citar a Copa de 2002 — escrevi 2022. De ora em diante, cuidarei para que o robô revise o texto antes de enviá-lo. Escusas, mais uma vez.

Leia outras colunas do Marcus Gomes no HojeSC