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marcus gomes

Mais uma história de redenção em uma droga de vida

casagrande

O comentarista esportivo Walter Casagrande Jr. está subindo aos palcos para contar histórias de sua vida imerso nas drogas. Do seu currículo constam três overdoses e um capotamento de carro, eventos que se amarram a uma narrativa de quase-morte, de luz branca, de epifania e de superação. Qualquer leitor já teria bocejado na primeira vírgula e eu não o culpo.

Não se trata de desrespeito ou deboche, mas de tédio. Quanto mais precisaremos saber das estradas sinuosas que percorrem os ébrios ou viciados para que nos convençamos de que, em se tratando de droga, basta a nossa vidinha besta?

Para Casagrande e companhia não é suficiente. Ele quer ser o herói de sua própria existência, emulando de forma rasa o Copperfield de Charles Dickens.

Quer se vitimizar e causar pena, contar que desceu ao inferno, viu a face de Satã e achou que ele era Galvão Bueno.

Vá, mas não me chame

Histórias de dependentes químicos pululam nos canais de streaming à razão de seis documentários em dez. Só perdem para os assassinos em série que estripam, picam, esfolam, evisceram e empalam suas vítimas. São atores, atrizes, modelos, lutadores, cineastas, pagodeiros e outros tantos que afundaram na cloaca.

Os relatos de jornalistas e de boleiros que se autodenominam como tal, mesmo ignorando regras elementares da concordância verbal, agora ganham fôlego. Casagrande se apresentou no Teatro Guaíra, em Curitiba, na semana passada, em pleno feriado de Páscoa, quando os cidadãos da capital desabam para o litoral.

Em um espetáculo como esse, eu certamente recorreria ao slogan clássico da turma do Casseta & Planeta: ‘Vá ao teatro, mas não me chame’.

Tenho certeza, porém, que os corintianos, nostálgicos da democracia do clube, que hoje é democrática também com seus credores, estabelecendo plena igualdade e não pagando ninguém, se encarregaram de esgotar os ingressos.

Marmitão da madrugada

Há um caso emblemático de jornalista da capital propenso a fazer palestras antidrogas onde quer que o chamem. Escolas, presídios, salas de tricô e crochê, cursos ligeiros de culinária, etc. Ele não perde uma.

Com passagens por agências de notícias e jornais locais, ele ganhou fama por denunciar o marmitão da madrugada em uma pretensa greve de fome de professores do estado no fim dos anos 1990. Também por demitir um colega que ousou escrever que ele torcera para o Coritiba na única final do Brasileiro que o time disputou e ganhou. Lá nos idos de 1985.

Quando dele não se esperava mais nada, porque o manual do antijornalismo parecia preenchido de A a Z, ele foi à forra contra um repórter da CNT por quebrar as regras e buscar a notícia onde ela está.

No caso, enfiando um microfone na janela do vestiário do Atlético, a fim de ouvir o treinador Emerson Leão analisar a tática do adversário. Pra quê?

Coincidentemente, a Globo de São Paulo agiu da mesma maneira, captando instruções de Luiz Felipe Scolari durante treino do Palmeiras. Neste caso, configurou-se um furo de reportagem, jargão que o jornalista, cioso de seu clubismo, jamais incentivaria entre os seus.

Comedor de ópio

Pois ele vendeu a sua condição de viciado recuperado até o ponto de exagero. Ele não era mais o jornalista comedor de ópio. Agora se apresentava como o renascido e, juro, não tem coisa pior.

Da última vez que o vi, sua aparência era a de um buda insepulto que nunca desistia. Fosse em grupos reduzidos de escoteirinhos, em filas de banco, no balcão da padaria, nas salas de espera, lá estava ele, risonho e sacudido, deitando sua pregação.

Se me fosse dado opinar, é certo que eu o aconselharia a retornar às drogas. Porque de chatos já estamos por aqui.

Qualquer coisa para que Casagrande não conte sua vida. Qualquer coisa para que o jornalista não despeje sua lenga-lenga, qualquer coisa, até a morte lenta e dolorosa, para que o chato seja chato apenas entre os seus. Ó Deus.

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