Ó vida, ó azar que vivamos nós em tempos puritanos onde tudo o que não está no Index Librorum Prohibitorum deva ser queimado ou “cancelado” – que é como a Inquisição virtual trata aqueles lançados às labaredas.
Se pudesse, o Instituto de Advocacia Racial (Iara) – sim, há gente do Direito envolvida na celeuma – estaria agora mesmo promovendo a fogueira junina de toda a obra de Monteiro Lobato, com pinhão, pipoca, vinho quente e paçoca.
Explico: não faz muito, a 1ª Seção do STJ apreciou, com pompa e circunstância, o viés racista do livro infantil Caçadas de Pedrinho, publicado por Lobato em 1933.
Em 2011, o Iara impetrou mandado de segurança no STF contra a obra de Lobato, alegando que o tema era “inconsistente” com a liberdade de expressão por tratar o negro com estereótipos fortemente carregados de elementos racistas.
Para sustentar a acusação, foram destacadas duas passagens do livro. Uma delas diz: “É guerra e das boas. Não vai escapar ninguém – nem Tia Nastácia, que tem carne preta”. Outra passagem narra: “Tia Nastácia, esquecida de seus numerosos reumatismos, trepou, que nem uma macaca de carvão.”
À época, o Conselho Nacional de Educação (CNE) recomendou que os livros de Lobato não fossem mais distribuídos às escolas públicas. Era uma censura velada. Contudo, o então ministro da Educação, Fernando Haddad (quem diria), resistiu à decisão e pediu ao CNE que ela fosse reconsiderada.
Fez mais: não levou adiante a ideia de uma nota explicativa sobre racismo. O livro pontuara a infância de várias gerações de brasileiros. Era impossível que, agora, as referências à cozinheira preta do sítio fossem suficientes para indexar a obra, como fizera a Igreja Católica em tempos de Torquemada.
Há cenas de bastidores, no decorrer dos últimos anos, que envolvem a tentativa do ministro Dias Toffoli de incluir o processo na pauta. O tribunal, entretanto, negou provimento.
Por fim, o STF julgou-se incompetente para julgar o mandado de segurança e remeteu os autos para a 1ª Seção do STJ, composta por dez ministros e apta a julgar matérias de Direito Público.
Lobato escreveu uma extensa obra de livros infantis, a maioria tendo como cenário o “Sítio do Picapau Amarelo” e como protagonistas os personagens Pedrinho, Narizinho, Emília, Visconde de Sabugosa, Dona Benta e… Tia Nastácia.
Por que pegaram Lobato para Cristo? Porque estava disponível. Em breve, se a marcha da insensatez persistir, haverá investidas também contra os livros de Jorge Amado, Guimarães Rosa (então Diadorim era trans?) e de Machado de Assis, que em Memórias Póstumas de Brás Cubas fez com que seu defunto-autor recusasse engatar relacionamento com uma personagem que descobriu manca, trôpega, coxa, aleijada.
Curiosidade: em encenações da peça Romeu e Julieta, na Inglaterra, os produtores fazem questão de distribuir ao público, logo à entrada, um folheto “alertando” que o suicídio dos amantes é uma simulação, que o sangue jorrado é falso e que as lutas de espadas também.
João Pereira Coutinho, colunista da Folha, diz que só a saúde mental explica esse tipo de alerta. Ó vida, ó azar.
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