
A tese de que o psicopata não pode ser reabilitado nem mesmo curado não foi o que motivou o britânico Anthony Burguess a escrever ‘Laranja Mecânica’ (The Clockwork Orange) em 1959. Sua primeira esposa, Lynne, havia sido estuprada e agredida por quatro soldados norte-americanos no pós-guerra e ele recebeu um diagnóstico terrível: tinha um câncer no cérebro e pouco tempo de vida.
Em um frenesi literário, Burguess produziu dez romances em um ano – entre eles ‘Laranja Mecânica’ – preocupado que estava com o sustento da mulher após sua morte. O diagnóstico, soube-se depois, estava errado. Ele viveria longo tempo.
O livro não foi um sucesso de crítica nem de público e só ganhou destaque quando, uma década depois, Stanley Kubrick decidiu adaptá-lo para o cinema.
Creio que Burguess estava familiarizado com as teorias de análise de comportamento e, principalmente, com as experiências do cientista soviético Ivan Pavlov – o escritor falava vários idiomas, inclusive o russo.
Ouvir e salivar
A ideia de Burguess foi transportar a análise empírica do cão, que reagia e salivava ao ouvir a sineta da refeição, para o protagonista do livro.
Alex, é um adolescente ultraviolento, líder de gangue e apreciador, não necessariamente nessa ordem, de carros velozes, invasões, surras em mendigos e música clássica – Ludwig Van Beethoven em particular.
No filme, Kubrick é tão fiel a Burguess quanto este a Pavlov. Estão lá os estímulos e reações, tal como observados pelo russo no experimento com o cachorro.
Alex é preso e condenado por homicídio, mas durante o tempo na prisão se apresenta como voluntário em um experimento de ressocialização de criminosos.
Nos dois anos que passou trancafiado, o protagonista fingira o arrependimento assumindo a função de auxiliar do pastor na penitenciária. Quando lia a Bíblia, porém, imaginava-se no papel do romano que açoitava Jesus durante a via sacra.
Ressocialização
O tratamento ao qual Alex é submetido faz com que reaja com aversão ao sexo e à violência. Já o cão de Pavlov, como já dito, é condicionado a associar a comida ao toque de uma sineta, de modo que mesmo que a refeição não seja oferecida, ele ainda assim saliva.
Alex, enfim, é libertado após um curto tratamento. Mas há um efeito colateral. A música de fundo, escolhida ao acaso, durante as sessões terapêuticas, é a Nona de Beethoven, a preferida de Alex e que, de agora em diante, ele não poderá mais ouvir sem que tenha convulsões.
De volta a Londres, onde mora, Alex assiste a sua vida se repetir, assim como previsto na teoria do eterno retorno de Nietzche. A diferença é que agora suas vítimas podem executar a vingança, uma vez que ele é incapaz de reagir.
Borrão da censura
Duas ou três curiosidade sobre o filme e o livro. Lançado em 1972, ele foi um sucesso de bilheteria, mas provocou reações em alguns países. No Brasil, ele foi censurado pelo governo militar. Quando finalmente estreou, em 1978 – há 48 anos, portanto –, o departamento de censura exigiu que o nu frontal fosse borrado.
Digamos que o funcionário encarregado se esforçou, mas apagar, fotograma por fotograma na cena em que uma mulher prestes a ser violentada, corre de um lado para o outro em um velho teatro, foi exigir demais.
O último capítulo do livro de Burguess fala de redenção, mas Kubrick só teve acesso à edição norte-americana, na qual esse trecho foi suprimido. Cá entre nós, foi melhor.
A expressão ‘Clockwork Orange’ foi extraída do provérbio cockney ‘as queer as a clockwork orange’ (tão bizarro quanto uma laranja mecânica). Há um glossário no fim do livro para quem não conseguir contextualizar a linguagem inventada por Burguess, uma mistura de inglês, polonês e russo.
Cantando na chuva
Quando soube que o médico o havia feito expiar seus pecados em vão, Burguess tratou de mudar de vida. A primeira coisa que fez foi divorciar-se de Lynne, que morreria de cirrose hepática em 1968.
A trilha sonora composta por Walter Carlos, utilizando um sintetizador, pontua cada cena de forma impressionante. O zoom seguido de close-up no rosto de Alex na abertura, o estupro ao som de “Singing in the Rain”, o ménage à trois em que se fundem a velocidade das imagens (cômicas) e a abertura de “Guilherme Tell”, de Rossini.
Anos depois, Walter Carlos se submeteria a uma cirurgia de mudança de sexo, mudando seu nome para Wendy Carlos, hoje com 89 anos. Anthony Burguess morreria em 1993, Kubrick em 1999, mas ‘Laranja Mecânica’ certamente os imortalizou.
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