Em 19 de maio de 1992, o Kiss lançou aquele que muitos consideram o ápice artístico de sua fase sem maquiagem, Revenge. Depois de uma década marcada por mudanças de estilo, da sonoridade pop ao hard rock irregular, a banda decidiu recuperar o peso que havia caracterizado seus melhores trabalhos dos anos 1970 e início dos anos 1980. Para isso, voltou a trabalhar com o produtor Bob Ezrin, responsável por clássicos como Destroyer, de 1976, e reuniu uma formação extremamente sólida: Paul Stanley, Gene Simmons, Bruce Kulick e o recém-chegado baterista Eric Singer. O álbum foi também uma homenagem ao saudoso Eric Carr, falecido em 1991.
Com Unholy, poucas vezes a banda abriu um álbum de maneira tão impactante. A introdução, construída sobre um riff pesado, estabelece imediatamente uma atmosfera ameaçadora. Bruce Kulick utiliza um timbre encorpado e comprimido, enquanto Eric Singer impressiona pela precisão dos ataques. Gene Simmons domina completamente a canção. Sua interpretação vocal recupera o personagem demoníaco que sempre foi uma das marcas da banda. O solo de Kulick merece destaque especial. Em vez do virtuosismo gratuito, ele desenvolve frases agressivas.
Em Take It Off, Paul Stanley assume o comando em uma composição muito mais direta. O riff principal possui clara influência do hard rock clássico, mas recebe tratamento moderno graças à produção de Bob Ezrin. A bateria mantém um groove constante, permitindo que o refrão se torne o centro da música. Bruce Kulick enriquece o arranjo sem comprometer sua simplicidade.
Tough Love é uma das canções mais pesadas compostas por Paul Stanley. A guitarra utiliza riffs sincopados, aproximando-se do heavy metal contemporâneo. Eric Singer demonstra enorme versatilidade ao alternar batidas retas e pequenas variações que mantêm a música constantemente em movimento. Paul canta de maneira mais agressiva do que o habitual, evitando os excessos vocais característicos da década anterior. Bruce Kulick entrega outro excelente solo.
Gene Simmons retorna com uma das canções mais irreverentes do álbum, Spit. O riff principal é extremamente simples, mas eficaz. A força da canção reside justamente na combinação entre groove pesado e atitude. A interpretação vocal de Simmons é quase teatral. Ele explora pausas, mudanças de intensidade e pequenas inflexões que tornam a narrativa divertida e provocativa. Kulick trabalha muito bem as guitarras rítmicas, utilizando camadas discretas que ampliam o peso da faixa.
God Gave Rock ‘N’ Roll To You II é o momento mais grandioso do álbum. Originalmente composta por Russ Ballard, a música foi profundamente reformulada pela banda após sua participação na trilha sonora do filme “Bill & Ted’s Bogus Journey”, tornando-se um dos grandes hinos da fase sem maquiagem. Os arranjos são amplos, com guitarras em múltiplas camadas, teclados discretos e um refrão monumental. Paul Stanley conduz a maior parte da interpretação, enquanto Gene Simmons acrescenta peso nas respostas vocais. A canção cresce continuamente até atingir um clímax emocionante.
Domino é a melhor composição de Gene Simmons no álbum. O riff principal possui influência evidente do blues rock, mas recebe tratamento pesado e moderno. A linha de baixo conduz boa parte da música, enquanto Eric Singer utiliza uma levada espetacular. Gene canta com enorme confiança, explorando seu tradicional humor malicioso. Bruce Kulick realiza um dos solos mais criativos do álbum, alternando velocidade, fraseados melódicos e excelente controle de dinâmica.
Em Heart Of Chrome, Paul Stanley oferece uma composição bastante diferente das anteriores. A faixa possui andamento médio e uma construção harmônica mais sofisticada. O refrão é fortemente melódico. Bruce Kulick utiliza guitarras menos agressivas, privilegiando timbres limpos em determinados trechos. O solo demonstra enorme sensibilidade, funcionando como extensão natural da melodia.
Thou Shalt Not mergulha novamente em territórios sombrios. O riff é seco, pesado e quase minimalista. Eric Singer conduz a música com uma bateria extremamente precisa, enfatizando os tempos fortes. A letra desafia dogmas religiosos e morais através de ironia e sarcasmo, característica que Simmons explora com grande competência interpretativa.
Every Time I Look At You é a grande power ballad do álbum. Paul Stanley entrega uma de suas melhores interpretações vocais dos anos 1990. O piano introduz delicadamente a composição antes da entrada gradual das guitarras. Bruce Kulick demonstra enorme maturidade ao evitar qualquer exibicionismo técnico. Seu solo privilegia construção melódica e emoção. A canção cresce lentamente até um final bastante intenso.
Com Paralyzed, o álbum recupera imediatamente o peso. A guitarra apresenta um riff quebrado e agressivo, sustentado por uma bateria extremamente sólida. Paul Stanley canta com energia impressionante, explorando regiões mais graves de sua voz. Kulick entrega outro solo inspirado.
I Just Wanna é um momento mais descontraído. O riff principal possui forte influência do rock clássico dos anos 1970, enquanto a bateria mantém andamento sensacional. Paul Stanley interpreta a canção com evidente diversão, recuperando parte da irreverência tradicional da banda. Embora mais leve, a produção mantém o peso característico do álbum. O resultado é uma faixa extremamente eficiente e divertida.
Carr Jam 1981 possui enorme significado emocional. Mais do que uma faixa convencional, trata-se de uma homenagem instrumental a Eric Carr. Baseada em uma antiga gravação feita pelo baterista pouco depois de ingressar na banda, a faixa recebeu novas guitarras de Bruce Kulick, preservando o espírito da performance original. A bateria naturalmente ocupa posição central. Eric Carr demonstra toda sua criatividade através de viradas rápidas, acentos inesperados e excelente controle técnico. Kulick complementa o material com guitarras discretas, evitando transformar a homenagem em exibição. É um final comovente para um álbum marcado pela superação.
Revenge representa o momento em que o Kiss conseguiu unir sua tradição ao peso exigido pelo cenário do início dos anos 1990. Em vez de perseguir tendências, a banda voltou a apostar em riffs fortes, produção robusta e composições mais maduras. Gene Simmons vive um de seus melhores momentos como compositor desde o fim da década de 1970, enquanto Paul Stanley equilibra o álbum com melodias memoráveis. Bruce Kulick realiza, provavelmente, sua performance definitiva como guitarrista do Kiss, entregando solos elegantes e tecnicamente impecáveis. Já Eric Singer estreia de forma brilhante, imprimindo precisão e energia às gravações. O álbum conseguiu recuperar a personalidade pesada da banda sem parecer uma tentativa nostálgica de reviver o passado. É um álbum vigoroso, consistente e uma das grandes obras do hard rock. Do rock’n’roll. Do bom e velho rock’n’roll.
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