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JAINE VERGOPOLEM

Onde o clima começa a apagar

No início, parecia apenas tempo. O calor que insiste. A chuva que não espera. O ar pesado que se infiltra nos cantos mais silenciosos. Nada anunciava, à primeira vista, que também ali — entre papeis, caixas, molduras e álbuns — algo estava se desfazendo.

A fotografia sempre conviveu com a delicadeza. Vive do equilíbrio mínimo entre luz e sombra, presença e ausência. É matéria sensível, corpo exposto. Ainda assim, durante muito tempo acreditamos que bastava protegê-la do excesso de sol, do toque descuidado, do esquecimento. Não imaginávamos que o próprio clima passaria a ser seu maior inimigo.

O mundo aquece e as imagens sentem. As cores desbotam antes da velhice, o papel ondula, os fungos surgem como pequenas constelações de perda. A fotografia, criada para suspender o tempo, agora é atravessada por ele de forma brutal. O que deveria durar gerações começa a desaparecer em silêncio, sem alarde, sem despedida.

Memória familiar/Jaine Vergopolem

 

É quase no meio deste percurso — quando a fragilidade já se impõe — que me dou conta de onde nasce esta coluna de retorno, após alguns meses distante. Inspiro-me no texto “Mudança climática já ameaça coleções de fotografia”, de Jotabê Medeiros, que revela como instituições como o Parlamento Europeu e o National Trust passaram a repensar protocolos de preservação diante do aquecimento global. Mas o texto que escrevo aqui não se limita ao dado técnico — ele escorre para um lugar mais íntimo, mais inquieto.

Porque o que está em risco não são apenas acervos institucionais. São álbuns de família, retratos anônimos, imagens guardadas em casas comuns, em cidades sem política pública de memória. No Brasil, país de arquivos frágeis e histórias interrompidas, a fotografia também enfrenta o abandono climático. Falta ar, falta cuidado, falta prioridade. E o tempo — agora desregulado — avança.

Memória familiar (II)/Jaine Vergopolem

 

A crise ambiental, percebo, não é apenas um colapso natural. É também um colapso narrativo. Ela apaga florestas e apaga imagens. Seca rios e desbota fotografias. Desorganiza o futuro e corroi o passado. Como alguém que carrega a terra como origem e a imagem como linguagem, não consigo separar essas camadas. Defender o meio ambiente é, inevitavelmente, defender a memória.

Quando o clima ameaça imagens, ameaça também nossa capacidade de lembrar quem fomos. Talvez a fotografia não seja apenas registro. Talvez ela seja um aviso. Um pedido silencioso para que cuidemos do planeta que sustenta tanto a vida quanto as imagens que tentam contá-la. Porque sem equilíbrio ambiental, não há preservação possível — nem da natureza, nem da memória, nem de nós mesmos.

(Foto principal: O clima apagando/Jaine Vergopolem)

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