
Nas palavras do artista: “Seria um erro considerar minhas fotografias dentro do contexto dos valores atualmente em voga nas artes em geral e na fotografia em particular. Alinhá-las a esta ou àquela tendência, sem levar em conta que a própria razão de sua existência é definida pelo passado.
Mesmo as mais factuais entre elas não são uma reportagem, mas um romance. A principal motivação para sua criação é, na verdade, sempre a mesma: a história da Rússia ao longo do século XX, que é uma sucessão interminável de tragédias de dimensões cada vez mais desconcertantes — sejam as guerras, as fomes ou os chamados tempos de paz. A história da Rússia… mas na forma de imagens bastante contemporâneas, feitas em um único lugar, uma única cidade: São Petersburgo.
Mais do que a cidade (que na maioria das vezes aparece apenas vagamente visível), essas fotografias representam emoções — o conjunto de sentimentos que formam o caráter interior profundo das pessoas que viveram neste país e suportaram todos esses desastres, pessoas que geralmente foram retratadas apenas de fora.
E são, portanto, essas emoções — que em si mesmas são bastante universais e permaneceram inalteradas ao longo do século, como as emoções despertadas pela música de Shostakovich, por exemplo, ou pelos romances de Soljenítsin — que constituem o verdadeiro tema das minhas fotografias. Meu objetivo seria transmiti-las ao espectador, fazê-lo senti-las… compreendê-las… sentir compaixão e… amor.” — Alexey Titarenko
Ao ler as palavras de Titarenko, percebo que suas fotografias nos convidam a olhar para algo que a fotografia muitas vezes tenta esconder: o tempo. Nas imagens do artista, as pessoas não aparecem congeladas como retratos nítidos e definitivos. Elas se dissolvem. Caminham como sombras. Tornam-se rastros de presença.
Esse desfoque não é descuido técnico. Pelo contrário, é uma escolha profundamente consciente. É como se o fotógrafo estivesse dizendo que a história não é feita de imagens perfeitas, mas de camadas, de memórias sobrepostas, de vidas que atravessam os espaços e deixam marcas invisíveis.
Nas ruas de São Petersburgo, que aparecem quase sempre envoltas em névoa e movimento, às figuras humanas lembram fantasmas do século. Pessoas comuns que carregam, sem saber, o peso de guerras, fomes e silêncios históricos. Não vemos exatamente seus rostos, mas sentimos algo delas — uma espécie de melancolia coletiva, um eco de humanidade. Talvez seja isso que torna a fotografia de Titarenko tão poderosa: ela nos lembra que uma imagem não precisa mostrar tudo para dizer muito. Às vezes, quando a nitidez desaparece, outras dimensões aparecem. Emoções, memórias, atmosferas. E é nesse ponto que a fotografia deixa de ser apenas registro do mundo visível e passa a ser também uma tentativa de tocar aquilo que quase nunca conseguimos ver: a experiência humana que permanece entre um instante e outro.
Confira mais imagens de Alexey Titarenko em suas redes sociais: https://www.instagram.com/alexey_titarenko_photo/
(Imagem: Vulto de uma cidade russa. Foto: Alexey Titarenko)
Leia outras colunas da Jaine Vergopolem aqui.

