Somewhere In Time é o álbum em que o Iron Maiden fez história. Lançado em 29 de setembro de 1986, no auge da popularidade da banda, o álbum é marcado pela introdução de sintetizadores de guitarra e baixo, criando uma atmosfera fria e futurista que divide opiniões até hoje. Não é o álbum mais imediato da fase clássica, mas é talvez o mais atmosférico e detalhista, com o guitarrista Adrian Smith assumindo um papel de destaque como compositor. A produção ficou a cargo do gênio Martin Birch.
Caught Somewhere In Time, a abertura é um cartão de visitas perfeito para o que viria. Começa com um sintetizador de guitarra, antes de explodir na clássica linha de baixo de Steve Harris. A letra fala sobre escapar do controle do tempo, e a performance de Bruce Dickinson é intensa. É uma faixa longa, com mais de sete minutos, que estabelece o tom de ficção científica e introspecção do álbum, sem perder a pegada.
Wasted Years é a canção mais famosa do álbum e um dos maiores hinos da banda. Escrita inteiramente por Adrian Smith, tem um riff de abertura cristalino e inesquecível. A letra é uma reflexão melancólica sobre aproveitar o presente e não viver apenas de nostalgia. “Don’t waste your time always searching for those wasted years”. É a faixa mais acessível e comercial do álbum. O solo é um dos melhores da carreira de Smith.
Em Sea Of Madness o álbum mergulha em algo mais sombrio e pesado. O riff inicial é surpreendentemente denso para os padrões da banda na época. A canção tem uma dinâmica interessante, com passagens mais lentas e climáticas que contrastam com o peso dos versos. É frequentemente citada pelos fãs como uma das faixas mais subestimadas do catálogo, com um instrumental que flui de forma quase cinematográfica.
Heaven Can Wait é a faixa que mais divide os fãs. É um épico de mais de sete minutos construído em torno de um refrão de estádio, feito para ser cantado em coro ao vivo. Coisa que funciona muito bem nos shows. No entanto, a estrutura é repetitiva e alguns críticos a consideram arrastada no álbum. A letra aborda uma experiência de quase morte, com um tom mais pessoal que o resto do álbum.
The Loneliness Of The Long Distance Runner, baseada no conto de Alan Sillitoe, é uma das faixas mais progressivas do álbum. O instrumental é intrincado, com mudanças de tempo e um clima de tensão. Não tem refrão fácil, mas recompensa com uma das passagens instrumentais mais interessantes da segunda metade do álbum.
Stranger In A Strange Land, outro destaque de Smith, tem um clima mais melódico, com um riff que lembra a sonoridade de bandas de rock progressivo dos anos 70. A letra, curiosamente, não é sobre o livro de Robert A. Heinlein, mas sim sobre um explorador do Ártico que morre congelado. Dickinson entrega uma performance vocal cheia de nuances, e o solo é um dos mais emotivos do álbum.
Déjà Vu é uma faixa mais curta e direta, com um riff energético e um refrão grudento. A letra é um pouco óbvia ao explicar o conceito de déjà vu, mas a energia da banda compensa. É a única composição creditada a Dave Murray no álbum, em parceria com Steve Harris, e traz um solo de guitarra bastante inspirado.
Alexander The Great (365-323 B.C.) é o grand finale. Um épico de quase nove minutos que conta a história de Alexandre, o Grande. É uma das faixas mais ambiciosas da banda, com uma introdução climática, passagens narradas e um instrumental complexo. A crítica principal recai sobre a letra, que por vezes soa como uma aula de história cantada, e o refrão um tanto óbvio. No entanto, a construção musical é impressionante, e a faixa se tornou um culto entre os fãs, especialmente por nunca ter sido tocada ao vivo por décadas.
Somewhere In Time não é o álbum mais cru do Iron Maiden, mas é um dos mais ricos em texturas e ambição. A produção de Martin Birch é impecável, e a arte de Derek Riggs, com Eddie em uma versão ciborg, é icônica. É um álbum que exige algumas audições para ser totalmente assimilado, mas recompensa com algumas das canções mais interessantes da fase clássica. Um álbum que fez história. A história do rock’n’roll. Do bom e velho rock’n’roll.


