Unidos por laços de sangue, é assim que se define ser irmãos. Estou escrevendo essa coluna no dia 30 de abril, dia do aniversário de meu irmão Magno Bastos Dias, que nos deixou aos cinquenta e três anos, morando na França, longe dos pais e irmãos. Filho mais velho de nós sete, recebeu o mesmo nome do tio paterno. Foi apaixonado por cultura e arte, de tal forma, que sua vida justificaria a pergunta que dá nome a essa coluna: “Arte importa?”
Na música, ao tocar piano e até compor, Magno sempre trouxe para a nossa casa os grandes nomes da época do vinil na música popular internacional. Foi por seu intermédio que conhecemos os Beatles, com “Help!”; Gilbert Bécaud, com seu inesquecível “Et Maintenant”; a jovem italiana, Rita Pavone, com “Come te non c´è nessuno”, além do melhor do Jazz internacional. Na literatura, desde muito pequeno, sentava-se no sofá e lia por horas a fio, desde o Tesouro da Juventude passando, mais tarde, por Eça de Queiroz, Machado de Assis e James Joyce sem deixar de trazer para casa, naquele tempo, os gibis “O Fantasma” e “Mandrake” e mais tarde a revista “Mad” e o “Pasquim”. Nunca foi dado aos esportes, mas falava um português impecável desde bem jovem, já que muito cedo leu os clássicos: como não falar do maior forrobodó, quando o livreiro e editor Ocyron Cunha (reitor da UFPR de 1977 a 1982) e o Vinholis contaram ao papai que ele tinha adquirido um exemplar do livro “O Processo”, de Kafka. Eu adorava! e nunca me esqueci de expressões que usava como: “Não me venha de borzeguins ao leito” de Guimarães Rosa em “Grande Sertão: Veredas” (1956). No cinema, nas muitas sessões do Cine Clube no Colégio Santa Maria, mergulhou na Nouvelle Vague e, nesse período, só ouvíamos falar e vivíamos tempos de Godard, Truffaut , entre os “Morangos Silvestres” de Bergman e os “Cahiers du Cinéma”.

Na infância, muitas estripulias, mais dele do que minhas. Ele, sempre muito ousado, em busca de aventuras que me aterrorizavam, como uma vez, quando num descampado no bairro do Jabaquara, em São Paulo, (hoje lotado de casas) lá pelos anos de 1953/4, queria pegar carona em uma charrete que passava. De outra vez quis subir no elefante que caminhava pelo bairro fazendo propaganda da Bombril. No Colégio Santo Antônio Maria Zaccaria, no Rio de Janeiro, usando um uniforme caqui de calças curtas, gostava de provocar os mais velhos. Muitas vezes, eu ouvia, à noite, a conversa de meus pais comentando que iam “pegá-lo na saída”. Eu, traumatizada, não queria ter filhos meninos, já que sempre achei briga uma coisa insuportável. Mais tarde, aqui em Curitiba, quando fomos matriculados no curso de alemão no Goethe Institut, por mais de uma vez, me propôs gazearmos a aula para irmos ao cinema. Lembro quando, uma dessas vezes, assistimos o filme “Rodan! O Monstro do Espaço” (1956, dirigido por Ishirô Honda). Além de ser aterrorizante, e ter me trazido pesadelos por um longo tempo, não nos ajudou em nada a aprender a difícil língua alemã e, gazeando mais uma vez, no dia da prova final (dessa vez fui eu quem propôs gazearmos a aula) foi que desistimos para sempre da língua alemã.
Poderíamos ficar aqui por dias desfiando o rosário de memorias, mas hoje, tantos anos depois, além de ter convivido pouquíssimo com ele na vida adulta, já que casei cedo e ele também saiu de casa cedo indo trabalhar no Rio de Janeiro e depois na Europa, poderia dizer de minhas lembranças sobre o Magno que ele era como o personagem de quem tanto gostava: o “Dom Quixote de la Mancha”, de Cervantes. Sensível, sonhador, bem distante das coisas práticas da vida era apaixonado pela beleza. Por onde passou deixou amigos e admiradores, sem contar com as meninas todas que se encantavam com seu charme e sua beleza. No lazer ou no trabalho, deixou marcas com sua inteligência, conversa interessante, humor sutil e comentários sarcásticos – aqueles que só alguns conseguem fazer mantendo a elegância.
Casou-se duas vezes e, na sua partida precoce, deixou quatro meninas, que hoje vivem na Europa e que espero possam apreciar essas breves lembranças que deixo aqui. Da vida ficam as memórias, verdadeiras ou falseadas pelo tempo vivido. Dos encontros com tantos amigos – que ele trouxe para a nossa casa e que fizeram música e alegria na sala onde, por anos, ficou a bateria emprestada do Guidinho Cecatto – sempre muito bem recebidos por meus pais, permaneceram enriquecendo nossas vidas com arte e boa conversa os amigos: Dico Kremer, França (Carlos Emiliano), Luiz Heitor Guimarães, Ricardo Pereira, Paulo Leminski, Luiz Henrique (o Gordo Mello), João Augusto Fleury Rocha, Sérgio Torres, Paulo Koehler, Ernani Buchmann, entre outros.
A arte e o Magno foram uma coisa só e, tanto uma como a outra, deixam marcas e saudades, alegrias, lágrimas lembranças de momentos e tempos que passaram, mas que ficaram gravados em nossos corações. Sorte de quem os compartilhou por laços de sangue, amizade ou de trabalho e pôde viver essa inesquecível aventura que foi sua rica vida entre nós.
(Imagem da abertura: “Irmãos”- Issam Helou – 2004 – grafite sobre papel -27×39 – coleção particular)
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