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ERNANI BUCHMANN CABECA hojesc

Inexplicações

Há coisas que não se explicam, apenas acontecem. Neste verão de grandes shows e milhares de pessoas no litoral, a minha mulher entra em uma farmácia e a caixa fica perplexa:

– O que você está fazendo aqui, mulher?

Tânia fica sem graça, responde que frequenta há anos aquela farmácia.

– Mas hoje você não vai apresentar o Jornal Nacional?

Não, ela não iria, como, aliás, nunca apresentou telejornal nenhum, já que não exerce o jornalismo. A jovem não se convenceu, mas aceitou.

Dias depois, estamos em uma feira quando a vendedora diz a ela:

– Estou reconhecendo seu marido, não sei se é ator ou cantor.

Fiquei todo pimpão. Passei a imaginar que ela poderia me tomar por um Shawn Mendes na flor dos seus 27 anos que possui ou, mais provável, por um Mick Jagger sem beiços e sem cinturinha de bailarino.

No caso de ser um ator, talvez tenha me confundido com o Antônio Fagundes, o que já aconteceu algumas vezes, em tempos imemoriais. Pela idade da moça era improvável que tenha me visto no palco, ambiente que frequentei apenas duas vezes, na época do colégio.

Na primeira delas, eu circulava pelo palco envolto em um cobertor, única túnica que possuía para cobrir as partes. Dali reclamava da má sorte, inclusive porque havia jogado no bicho e acertado o milhar, mas perdido o comprovante. Como se sabe, no jogo do bicho vigora a lei do “vale o escrito”. Sem o tal escrito, não havia aposta e, sem aposta, eu não tinha nada.

Fui bem sucedido no papel, a considerar o número de mães que vieram me consolar, nenhuma de posse do fictício papel. Ouvi muitas palavras sabidas, daquelas que a mãe de Paul McCartney dizia a ele em Let It Be.

Sobre a minha segunda entrada no palco, a memória esvaneceu. A canastrice do ator foi responsável por tê-la eliminado dos registros, pessoais e oficiais.

Mas a moça seguiu examinando meu rosto e ameaçando descobrir a identidade secreta que havia por trás dele. Espero que não chegado á conclusão que eu era, na verdade, o velho Bela Lugosi, falecido ator de filmes fantasmagóricos e mais feio que os modos de Donald Trump.

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