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Inaugurem a Biblioteca Dalton Trevisan!

Inaugurem a Biblioteca Dalton Trevisan!

dalton trevisan

O frio e a chuva típicos de Curitiba, nessa primavera tiritante, reclamam pela solenidade oficial de inauguração da Biblioteca Dalton Trevisan — dantes Biblioteca Pública do Paraná. Agora que Inês é morta, o governador em despedida, Ratinho Jr., poderia muito bem nos fazer essa mesura.

A BPP fez parte da vida deambulante do maior contista brasileiro, quiçá do mundo. Por isso a homenagem que certamente ele não aprovaria, avesso que era à fanfarra. Mas não a desmereçamos. Dalton nunca deixou de depositar ali cada exemplar de seus livros. E fez da biblioteca uma espécie de creche literária, deixando aos cuidados magnânimos do prédio, cravado no centro de Curitiba, suas duas filhas, quando ainda entregues aos primeiros estudos.

Dalton é Dalton Jerson Trevisan, nascido em 1925, falecido em 2024, aos 99. Prazer.

Em 2011, o escritor, já consagrado, publicou o último livro de contos inéditos (O Anão e a Ninfeta), mantendo o estilo que sempre o marcou: textos curtos, incisivos e nada recatados. Dalton foi censurado nas escolas, nas bibliotecas e durante o regime militar — e, ao que se sabe, não pediu nenhuma indenização ao Estado (tomou, papudo?).

Na década de 1980, ganhou o concurso literário da revista Status com o conto “Mister Curitiba”. Ganhou, mas não levou. A ditadura lhe cassou o posto e o prêmio. Não seria a última vez que Dalton — um recluso notório, comparável ao J. D. Salinger de O Apanhador no Campo de Centeio, porém mais prolífico — enfrentaria a tesoura e a inquisição. Ao fim, ficam os quirodáctilos, vão-se os coronéis.

“Ninguém escreve nada decente depois dos 80”

Em encontros com amigos na era pré-pandemia, entre eles o livreiro Aramis Chain, anunciou sua aposentadoria, afirmando que “depois dos 80, ninguém escreve nada decente”. Na década seguinte, dedicou-se a lapidar compulsivamente o que havia escrito, dando pinceladas e toques finais em vírgulas, frases e parágrafos. Talvez o resultado tenha sido novas histórias breves. Veremos quando a Todavia, editora para a qual Dalton havia se transferido pouco antes de morrer, fizer brotar novas edições.

Na Record, antiga morada, o contista lançou, por derradeiro, a coletânea Antologia Pessoal, que traz 94 contos selecionados e indubitavelmente reescritos. A história de Dalton, o curitibano de rotina inabalável, está igualmente relacionada com essa tarefa. Do “Vampiro de Curitiba” — epíteto que parece uma marca desgastada — sabe-se pouco. Há retalhos biográficos, sem precisão, que vazaram por indiscrição ou maledicência. O que se sabe do contista, portanto, carece de reescrita.

Apartamento em condomínio da Dr. Muricy

Em 2021, aos 95 anos, já privado de suas caminhadas peripatéticas e sob a atenção de uma cuidadora, Dalton mudou-se para um condomínio de apartamentos na Rua Dr. Muricy, na região central da capital paranaense. A causa da mudança foi um ladrão preso em flagrante. O endereço preciso do contista, até sua morte, foi guardado a sete chaves por seus amigos próximos. Dalton mantinha um muro intransponível em torno de si e, quando saía à rua, fazia questão de fugir daqueles que tentavam fotografá-lo ou abordá-lo. Se alguém quisesse um livro autografado, muito bem, ele o fazia de boa vontade — desde que o deixasse na Livraria Chain, com o nome escrito em um papelinho.

Aqueles que, de forma sub-reptícia, quiseram aproximar-se do escritor decantando amizade se deram mal. Ou foram eviscerados impiedosamente em seus contos. Baratas leprosas, pois sim.

Hiena papuda

Que o diga o repórter da mesma revista Status que viria a premiá-lo no concurso de contos. Com a missão de aproximar-se de Dalton, ele observou o escritor por alguns dias e descobriu a banca de jornais onde ele comprava livros de bolso e outras publicações. Foi matreiro, puxou conversa, e o escritor prontamente lhe indicou um dos livros de sua preferência: uma edição, em papel jornal, dos Contos de Tchekhov. O colóquio prosseguiu e foi gravado pelo repórter. Quando a matéria, enfim, foi publicada, Dalton reclamou na seção de cartas dos leitores. Não culpou o repórter, mas o editor, e a ele dirigiu alguns palavrões elegantes e refinados, típicos de sua verve.

Desavenças que se tornaram contos são mais conhecidas. Dalton espetava espinhos nas pontas dos dedos (os quirodáctilos) para assim escrevê-los no tom apropriado: o do ódio. “Hiena Papuda” e “Amintas 749” são só alguns exemplos.

“Se Capitu não traiu, meu nome é José de Alencar”

Há mais, muito mais. O contraponto são suas homenagens a amigos de longa data. Otto Lara Resende, por exemplo. A correspondência entre eles soma 600 cartas e foi doada ao Instituto Moreira Salles. Estão na lista, ainda, Rubem Braga e Vinicius de Moraes, cujos versos em que afirmava “me perdoem as feias, mas beleza é fundamental” foram estrondosamente refutados por Dalton. Ele sempre amou todas: as polaquinhas, as gordas do Tiki Bar, as de cinta-liga, broinhas de fubá mimoso.

Se o escritor é maldito fruto entre as mulheres, trata-se de caso pontual. Dalton é inflexível quando discute o adultério de Capitu, personagem do livro Dom Casmurro, de Machado de Assis. Para ele não há dúvida: “Se Capitu não traiu Bentinho, meu nome é José de Alencar”. E ponto.

Assim é Dalton. Vivo agora e nos longos anos paradoxais em que sua morte será lembrada.

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