
Quem assistir ao documentário “Os Loucos Anos 20” (2008), dirigido por Paul Dickin, sentirá de imediato a falta da literatura norte-americana. Ela, que reproduziu o ambiente das melindrosas, da Era do Jazz, dos speakeasies (os bares clandestinos no período da Lei Seca), dos gângsteres, do Ford Bigode e da esplendorosa oferta de sexo casual em uma noite de bebedeira, é uma ausência sentida no filme.
Mas há uma explicação plausível para esse lapso no roteiro: quando Nova York viveu a loucura da década egocêntrica, os escritores da Geração Perdida estavam do outro lado do Atlântico, choramingando os pesares da Grande Guerra nos cafés de Paris.
Ernest Hemingway ficaria famoso da noite para o dia com a publicação de O Sol Também Se Levanta (The Sun Also Rises, 1926), ambientado quase todo na Espanha. Francis Scott Fitzgerald, já gozando de grande sucesso, lançaria O Grande Gatsby (The Great Gatsby, 1925), um romance nova-iorquino, pero no mucho. A história se passa na Long Island das extravagâncias luxuosas, das traições idem e dos novos-ricos — o protagonista em especial. É um livro tão romântico e bem narrado, principalmente em seus detalhes fúteis e desejos voláteis típicos dos anos 1920, que afeta até os leitores mais durões. Mas convém evitar as versões para o cinema: prefira o livro.
O país mais rico do mundo
Foi a época do individualismo bruto. Quando o republicano Herbert Hoover assumiu a presidência, em 1929, os Estados Unidos haviam se tornado o país mais rico do mundo. Das linhas de montagem de Henry Ford saíram 10 milhões de carros que podiam ser comprados a preços módicos e em parcelas por qualquer cidadão americano. A Lei Seca vigorava desde 1920, ferindo as liberdades individuais: era proibido fabricar e vender, mas não comprar e beber — origem dos 32 mil bares clandestinos, a maioria controlada pela máfia.
Hoover era um multimilionário quarentão que fora Secretário de Comércio em governos republicanos anteriores. Atribuía-se a ele a opulência da nação; era chamado de “o arquiteto da prosperidade” e orgulhava-se disso. Sua política era simples: o governo não interferiria na vida das pessoas, bastava a autoconfiança de cada americano e tudo daria certo; em breve, até a pobreza estaria extinta.
Obviamente, o discurso de Hoover agradava às mulheres do Norte — de saias cada vez mais curtas —, mas não animava os sulistas. Estes ficaram de fora da festa da prosperidade e, por temerem perder tudo, logo procuraram culpados: os judeus de imediato, os estrangeiros em seguida e, depois, os negros. O som do rifle sendo engatilhado produziu uma onomatopeia (Ku Klux Klan), e a organização racista ganhou nome e propósito.
Quando houve a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, Hoover, que se negava a intervir no mercado financeiro, manteve-se impávido. Mesmo quando 100 mil empresas fecharam as portas e o desemprego atingiu um em cada quatro americanos, ele seguiu firme. Sua declaração de que ninguém passava fome no país e de que os desabrigados nunca tinham comido tão bem soou cruel. O resultado foi o naufrágio da América, ilustrado por uma metáfora ímpar: a imagem de um navio com o nome do presidente indo a pique.
Fila da fama
Ao assumir a presidência dos EUA, em 1933, o democrata Franklin Delano Roosevelt poderia ter igualmente naufragado na história, a despeito de seu discurso inspirador (“A única coisa que devemos temer é o próprio medo”). Salvou-o — e à América — a Segunda Guerra Mundial. Foi então que os Estados Unidos, até o fim de 1941 estrategicamente neutros porque combalidos, reergueram-se e consolidaram seu poderio econômico e bélico no planeta. O resto é literatura fartamente produzida.
P.S.: O toque de amargura, que também não consta no documentário, está na obra autobiográfica Paris é uma Festa, de Hemingway. Ele, que passara anos à sombra de Fitzgerald, decidiu — por um ressentimento tardio, quando já havia eclipsado o velho amigo — registrar as confidências que este lhe fizera à mesa do bar. Em resumo, narra o episódio do caso de Zelda (esposa do autor de O Grande Gatsby) com um piloto e o comentário depreciativo que ela fizera a respeito da anatomia do marido. Era “pequeno”, comparativamente. Hemingway nunca perdoou o fato de Fitzgerald passar-lhe à frente na fila da fama.
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