Este foi o título irônico de um filme de 1987 sobre prisioneiros norte-americanos em uma prisão do Vietnam do Norte. A prisão não parecia de forma alguma com um hotel da cadeia Hilton, é lógico.
Dois anos depois, era assim que nos referíamos ao hotel então existente à beira do Rio Branco, em Boa Vista, Roraima. O estado, recém-criado pela Constituição de 1988, tinha à época em torno de 140 mil habitantes, a maioria vivendo na capital.
Era um território sendo colonizado na coragem. Ao lado de quem vinha atrás de um pedaço de terra para plantar, estavam aventureiros e garimpeiros oriundos de todos os cantos. O piso da recepção dos hotéis tinha o tom vermelho do barro das botas.
A comunicação com o restante do país era precária. A BR-174, única ligação por terra com Manaus, a 800 quilômetros de distância, sofria constantes bloqueios das tribos indígenas, a exigirem pedágio para permitir o tráfego. A energia elétrica era gerada por uma usina termelétrica, sofrendo quedas sistemáticas. A ligação aérea resumia-me a um voo diário, a pousar e decolar de madrugada A esposa do então governador definiu a sensação de isolamento:
– Estamos tão longe que a floresta amazônica fica ao sul!
Certa noite desembarquei tonto de sono e me apresentei ao Hanoi Hilton. A reserva estava ok, mas antes de liberar o apartamento o porteiro completou;
– Seu companheiro de quarto vem mais tarde, no avião do vice-presidente Aureliano Chaves.
– Como é que é?
Era. Aureliano, ex-vice-presidente, estava em campanha para a presidência da República, nas eleições diretas previstas para o fim daquele ano. Com o hotel lotado, resolveram ceder a outra cama do meu apartamento a um desconhecido (por mim) assessor do homem.
Subi para o quarto, bloqueei a porta com o armário, tomei banho e fui dormir. Nada ouvi, porque nada aconteceu. De manhã, a barreira continuava intacta. O porteiro explicou que tentaram abrir a porta, mas não conseguindo, hospedaram o assessor na companhia de um incauto menos indignado do que eu.
Tive sorte. Imagino que, se em vez de um pacífico burocrata governamental, o assessor a mim destinado fosse um daqueles garimpeiros de bota suja de barro e revólver na cinta, eu não estaria aqui para contar essa aventura típica do velho oeste ianque.
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