
Um dos casos relevantes no contexto de empresas familiares brasileiras é o das Lojas Hermes Macedo, rede varejista que alcançou posição de destaque no país ao longo do século XX.
Em seu auge, a companhia figurava entre as maiores empresas brasileiras, com patrimônio estimado em aproximadamente US$500 milhões e uma base de cerca de 2 milhões de clientes, evidenciando sua relevância no setor. Apesar do sucesso alcançado, o grupo passou a enfrentar dificuldades significativas a partir de eventos familiares que impactaram diretamente sua estrutura de gestão.
A morte da esposa do fundador desencadeou disputas internas, evidenciando a fragilidade na organização das relações familiares e na definição de papéis dentro da empresa. Esse contexto contribuiu para o início de um processo de deterioração que afetou a operação de uma rede que chegou a contar com centenas de lojas.
A sucessão familiar ocorrida em 1983, somada a um movimento de cisão nos anos 1990 e a uma estratégia de diversificação considerada excessiva, agravou ainda mais a situação do grupo. A ausência de alinhamento estratégico e de mecanismos formais de governança dificultou a coordenação das decisões e comprometeu a sustentabilidade do negócio.
O quadro financeiro deteriorou-se progressivamente até que, em 1992, a empresa entrou em concordata. Embora tenha realizado o pagamento inicial de sua dívida, não conseguiu manter os compromissos nos anos subsequentes. A crise culminou na decretação de falência, com um passivo de aproximadamente R$ 90 milhões frente a um ativo significativamente inferior, evidenciando o colapso financeiro da organização.
A trajetória das Lojas Hermes Macedo demonstra que o reconhecimento dos riscos não é suficiente quando não acompanhado da estruturação de soluções institucionais adequadas. Ainda que o fundador tenha identificado desafios relacionados à sucessão e à continuidade do negócio, a ausência de planejamento sucessório formal, de instâncias de governança e de mecanismos para gestão de conflitos familiares comprometeu a capacidade de adaptação da empresa após a transição de liderança.
É razoável supor que a adoção de práticas estruturadas de governança poderia ter contribuído para alterar esse desfecho. A implementação de um modelo de cogestão, especialmente em momentos de transição, poderia ter auxiliado na preservação da competitividade e na manutenção da continuidade operacional.
Da mesma forma, a criação de um protocolo familiar teria permitido estabelecer regras claras para sucessão, participação e convivência entre os membros da família empresária, reduzindo a probabilidade de conflitos e desalinhamentos. Adicionalmente, a instituição de conselhos formais, tanto no âmbito da empresa quanto da família, proporciona um espaço estruturado para deliberação estratégica, favorecendo decisões mais consistentes e menos influenciadas por tensões pessoais.
Em síntese, o caso evidencia que a ausência de governança e de planejamento sucessório estruturado pode comprometer rapidamente organizações relevantes. Mais do que um episódio isolado, a história das Lojas Hermes Macedo reforça que a perenidade de empresas familiares depende da capacidade de antecipar conflitos, institucionalizar regras e estruturar processos que garantam continuidade para além da figura do fundador.
Leia outras colunas do Manoel Knopfholz aqui.

