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Fios de afeto

afeto

Final dos anos sessenta. Um jovem casal percorria a rua Padre Anchieta à procura do conhecido azulejista para concluir os acabamentos da nova residência. Casariam em breve. O futuro já se ensaiava. A sogra do rapaz os acompanhava, meiga como o próprio nome.

Chegaram à casa, onde Maria, filha de Seu Miguel, abriu a porta. Nascida na Alemanha, loira, de olhos azuis e sorriso fácil, trazia os cabelos semipresos no alto da cabeça – penteado que, anos depois, seria inspiração para a sobrinha. Uma das mulheres mais bonitas que conheci.

No sofá, a moça, então noiva, e sua mãe, de nome de flor, encantaram-se com as almofadas bordadas por Dona Anastácia, esposa de Seu Miguelzinho. Ela viera da Ucrânia após a guerra e trouxera nas mãos o que aprendera lá. Uma via com os olhos; a outra tateava até sentir a textura. Aquele era seu único modo de ver o mundo.

Seu Miguelzinho produzia vinhos artesanais. Muitos tinham o privilégio de provar. Naquele dia, não foi diferente. Meu pai até hoje elogia o sabor.

Mal sabiam eles que aquela visita escondia uma dessas coincidências que a vida costura em silêncio.

O nono irmão da minha mãe, um moreno alto, bonito, já havia comentado que o pai da namorada dele fabricava vinhos.Também falara da beleza da moça, mas ainda não a apresentara à família. Foi fácil juntar as pontas: as linhas do destino estavam traçadas.

Mais adiante, levei as alianças de minha tia Maria ao altar. E, num futuro distante, ela seria minha madrinha de casamento.

Recordo as tardes de férias, correndo pelas calçadas de sua casa, os lanches com pastel e sonho de goiabada que ela mesma fazia.

Esses dias, ganhei um presente feito por ela: amores-perfeitos de vários tons sobre a toalha branca. Fileiras desenhadas com fios sobre fios, cruz sobre cruz. Uma oração tecida. A agulha fere e cura. Séculos de vozes femininas, mãos que aprenderam com outras mãos.

Amo essa memória. Sou um desses tons no linho, faço parte da herança, da escrita sem palavras. Dou nome às flores. Toco nelas. Permaneço.

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