
Há lugares onde a fotografia não se pendura — ela respira. O Festival de Fotografia de Tiradentes é um desses espaços em que a imagem deixa de ser objeto e passa a ser atmosfera. Em sua 15ª edição, entre 11 e 15 de março de 2026, a cidade se dilui em visualidade: não há dentro e fora, apenas atravessamentos.
A chuva ensaiou presença desde o início. Não como ruptura, mas como tensão. Um céu indeciso, uma luz contida, o receio silencioso de que algo pudesse se perder. Mas fotografia não exige garantia — exige abertura. E quando a previsão mudou, não foi só no clima: foi no corpo de quem caminhava, no tempo das pausas, na forma como cada imagem passou a ser absorvida.
Tiradentes, então, operava em estado expandido. As projeções noturnas dissolviam as paredes históricas em superfície sensível, enquanto, durante o dia, exposições, falas e encontros desenhavam um campo de escuta. Idealizado por Eugênio Sávio, o festival se afirma não apenas como um dos principais pontos de encontro da fotografia brasileira, mas como um território onde ver implica também se deslocar.
E, ainda assim, talvez o que mais permanecesse não estivesse nas imagens expostas.
Mas nos cães.
Espalhados pela cidade, eles atravessavam tudo. Deitados à porta de restaurantes, entrando com naturalidade nas lojas, repousando próximos às exposições como quem também observa. Não eram ignorados, nem expulsos — eram acolhidos. Havia água, havia comida, havia um reconhecimento silencioso de que pertenciam ali.
Sem anúncio, sem mediação, tornavam-se uma espécie de gesto contínuo. Uma performance viva, integrada ao cotidiano. Enquanto tantas obras projetavam futuros possíveis, eles encarnavam um presente que já ensaia outro tipo de mundo — onde o cuidado circula, onde o espaço é compartilhado, onde a presença não precisa ser autorizada para existir.
Dentro das exposições, esse mesmo movimento se desdobrava. A fotografia insistia em tensionar o agora: futuros que não se apoiam apenas na técnica, mas na imaginação; naturezas que deixam de ser cenário para se afirmarem como sujeito; culturas, espiritualidades e religiosidades que, por tanto tempo tratadas como margem ou tabu, emergem como centro narrativo.
Há uma delicadeza política nisso. E uma precisão que a fotografia domina: tornar visível o que ainda está em formação.
Nada ali parecia querer concluir. As imagens abriam, sugeriam, deslocavam. Como se dissessem que o futuro não é um destino, mas um exercício contínuo de percepção.
A chuva, que quase atravessou os dias, permaneceu como vestígio. Umidade no ar, brilho nas pedras, uma leve desaceleração no ritmo. Não impediu — transformou. Como tantas vezes acontece na fotografia, foi na imperfeição da luz que algo se revelou com mais verdade.
E, ao fim, o que fica não é um conjunto de imagens específicas, mas uma sensação: a de que ver, às vezes, é aceitar não controlar.
E ainda assim, permanecer olhando.
(Imagem de abertura: Observância. Foto: Jorge A. Vergopolem Wassmansdorf / Fotos: Jaine Vergopolem)
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