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Eu tenho medo

Eu tenho medo

medo

Antes tucana de quatro costados e, depois, bolsonarista de igual estirpe, a atriz Regina Duarte protagonizou a histórica “campanha do medo”. O temor era de que, se Lula vencesse as eleições em 2002, o Brasil viraria de ponta-cabeça e o governo petista instalaria a ditadura do proletariado. (Pausa para risos). Lula reagiu imediatamente indicando para vice José de Alencar, um magnata da indústria filiado ao PL — sim, o mesmo PL de Flávio Bolsonaro — e, como cereja no bolo, divulgou a “Carta aos Brasileiros”, onde desdisse tudo o que o programa partidário do PT pregava.

“Eu tenho medo”, dizia Regina, olhando assustada para a quarta parede, enquanto desfilava um rosário de catástrofes que poderiam acontecer caso o petista fosse eleito presidente da República. Não deu certo. Lula foi eleito e governou por dois mandatos.

Anos depois, chegou a vez de Dilma Rousseff disputar a reeleição, e foi o PT quem lançou mão da “campanha do medo” para demolir a candidatura de Marina Silva, então filiada ao PSB. Marina se tornara a principal adversária de Dilma — que mais tarde ficaria conhecida pela pérola da “estocagem de ar” — na briga pelo Planalto. O jogo foi sujo. Uma das peças publicitárias mostrava uma mesa que se esvaziava à medida que a comida sumia dos pratos. A propaganda sugeria que a proposta de Marina de dar autonomia ao Banco Central entregaria o poder aos banqueiros e tiraria a comida da boca dos mais pobres.

Em outra peça veiculada no horário eleitoral, o PT propagou amplamente que uma eventual gestão de Marina Silva extinguiria programas sociais como o Bolsa Família e o Minha Casa, Minha Vida. Além disso, a candidata foi comparada a Jânio Quadros e Fernando Collor de Mello, sob o argumento de que a falta de apoio no Congresso culminaria em crise institucional e ingovernabilidade. O forte bombardeio midiático desidratou as intenções de voto de Marina. Em reportagem de setembro de 2014, o jornal Folha de S.Paulo revelou os bastidores dramáticos com o título: “Marina chora ao falar de Lula e se diz injustiçada”. Posteriormente, ela definiria o episódio como o “embrião do fenômeno das fake news”.

Golpes abaixo da cintura, mentiras e terrorismo psicológico com o eleitorado: essa foi a receita dos petistas para garantir a reeleição de Dilma naquela ocasião. Uma década depois, a história se repete, com a diferença de que nunca foi uma tragédia. É farsa lá e farsa aqui. Lula, que é, ao fim e ao cabo, o estrategista e o marqueteiro de sua própria campanha, move suas peças para tentar desidratar a oposição. Se vai conseguir, é outra questão.

O mote que pegou nos bastidores é aquele formulado pela neopetista Kátia Abreu: “Menos Janja, mais Alckmin”. Com a sombra da derrota projetando-se no horizonte, o petista cedeu em alguns pontos. Primeiro, tirou da cabeça aquele chapéu panamá que lhe dava o aspecto de coronel do cafundó. Segundo, concordou, enfim, em adentrar o mundo digital, gravando as próprias selfies. É um progresso e tanto para quem, no passado, sempre preferiu a comunicação direta das massas ao pragmatismo das telas.

Lula é um camaleão político por si só, a começar pela sua tintura ideológica. O petista já assoprou a trombeta diversas vezes para dizer que não é esquerdista. Em 1979, quando comandava as greves no ABC, afirmou que o feminismo era “coisa de quem não tem o que fazer” e que não havia homossexualidade na classe operária. Mudou com o tempo? Na essência, não. Em 2022, reclamou do politicamente correto (“chato pra cacete”). Depois, afirmou que a maturidade o afastou do radicalismo e que o caminho do centro é a “evolução da espécie humana”.

No arremate, governou quase uma década com o apoio de Valdemar Costa Neto e da base evangélica e, em tom eufórico, exaltou a si mesmo ao declarar que “o sistema financeiro nunca ganhou tanto dinheiro como ganha no meu governo”. Marina Silva bem que poderia dar o troco e bater abaixo da cintura agora. Mas ela preferiu fazer o “L”.

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