Tive um sonho estranho esta noite. Entrei no elevador do Edifício Moreira Garcez, onde dei expediente no primeiro emprego que tive, e o condutor fechou a porta pantográfica. Eu tinha os 20 anos da época, o ascensorista uns 70 e tantos. Interessante, ele também era eu, porém, velho.
O eu jovem ficou me olhando:
– O senhor trabalha aqui desde quando?
Respondi que não trabalhava lá, às vezes conduzia o elevador como forma de encontrar assunto para as crônicas que escrevia em um portal.
– O que é portal? Uma porta grande?
– Não, é um jornal digital.
Engraçado, o outro eu não conhecia essa linguagem.
– Como assim?
Expliquei que o mundo do século 21 era dependente de computadores, telefones celulares, inteligência artificial. Os jornais impressos estavam desaparecendo, Curitiba já não tinha um diário de grande tiragem, até a Gazeta do Povo tinha se tornado digital. Você lê as notícias em uma tela.
Não entendi nada. O eu velho prestou atenção na minha roupa, pelo jeito não gostou: calça de brim, sapato sem engraxar, japona ensebada. Concluí que eu tinha melhorado um tanto, ao longo das décadas que nos separavam.
– Vou ter sucesso na vida? Perguntei a mim.
– Razoável. Rico não vai ficar, mas fome também não passará. Vai ter filhos, netos, trabalhar em diversas atividades, sempre escrevendo, com livros publicados.
Eu moço quis saber se o namoro que estava engrenando com uma colega de escritório daria certo. Neguei, com base em minha longa experiência na questão., lamentando a futilidade do eu jovem.
O elevador chegou ao térreo. Saí, olhei para trás. Eu velho não estava mais lá. Tinha encontrado assunto para mais uma crônica no portal.
Corri, tinha pressa. Fui escrever, antes que acordasse.
Imagem: gerada por IA


