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Estranhezas musicais

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Ruy Castro acaba de lançar o livro Eu gosto de música, coletânea de crônicas publicadas por ele na Folha de São Paulo. Ali está o sumo da música brasileira e internacional cultuada por ele.
Vou pegar o gancho pelo lado que Ruy não mostrou. O cancioneiro nacional tem centenas de pérolas exóticas, tanto pelas letras absurdas, como pelos atropelamentos gramaticais. Aqui vai uma pequena amostragem.
O mestre Lupicínio Rodrigues, rei da dor de cotovelo, tem um verso antológico em Nervos de aço:

Você sabe o que é ter um amor, meu senhor,
e por ele quase morrer,
e depois encontrá-lo em um braço
que nem um pedaço do meu pode ser.

Como assim? O braço do outro não é um pedaço do dele? Se fosse, estaria tudo resolvido?
Em Mensagem, sucesso de Isaurinha Garcia nos anos 1950, há outra pepita:

Quando o carteiro chegou
E o meu nome gritou
Com uma carta na mão
Ante surpresa tão rude
Nem sei como pude
Chegar ao portão…

O carteiro chegar com uma carta na mão seria “surpresa tão rude”? Mas como, se a carta ainda nem tinha sido aberta?
Djavan, a par de ser um dos maiores compostores da nossa música popular, sempre surpreendeu pelas letras indecifráveis, porque privilegia a rima, não o sentido dos versos, como em Açaí:

La passion, puro afã
Místico clã de sereia
Castelo de areia
Ira de tubarão, ilusão
O Sol brilha por si.

“Clã de sereia”: será que escutei direito?
Outro estranhamento é causado em Tapas e beijos, sucesso de Leandro e Leonardo, pela redundância:

Eu sou dela e ela é minha
E sempre queremos mais
Se me manda ir embora
Eu saio lá fora
Ela me chama pra trás.

Esse “me chama pra trás” substitui o correto “me chama de volta”, que não rimaria.
Fagner tem lugar de destaque nesta relação. Na versão de Romance in Durango, de Bob Dylan, a letra quase não cabe na música. É que o poeta Fausto Nilo homenageou Dylan, mestre em letras longas e narradas. Eis um trecho, sensacional:

Será que eu dei um tiro no cara da cantina?
Será que eu mesmo acertei seu peito?

Há outra versão cantada por Fagner, esta com letra de Ferreira Gullar, que é Borbulhas de amor, também hilária:

Quem dera ser um peixe
Para em teu límpido aquário mergulhar
Fazer borbulhas de amor pra te encantar
Passar a noite em claro
Dentro de ti.

A mulher é um aquário e ele quer passar a noite dentro dele, digo melhor, dela, enquanto aquário. Puro realismo fantástico.
E A Estrada da vida, de Milionário e José Rico?

Nesta longa estrada da vida
Vou correndo e não posso parar
Na esperança de ser campeão
Alcançando o primeiro lugar.

É óbvio que, alcançando o primeiro lugar, o sujeito será campeão. É um pleonasmo.
Por fim, Espumas ao vento, do pernambucano já falecido Aciolly Neto, canção que na minha opinião é o maior hino do brega nacional, desbancando a cultuada Evidências:

Sem saber direito aonde ir e o que fazer
Eu não encontro uma palavra só pra te dizer
Mas se eu fosse você, amor, eu voltava pra mim de novo
E de uma coisa fique certa, amor
A porta vai estar sempre aberta, amor
O meu olhar vai dar uma festa, amor
Na hora que você chegar.

Há dois achados na letra: o primeiro é “voltava pra mim de novo”, ainda que o “de novo” só se justifique se a mulher já tivesse voltado outra vez, depois da traição. Mas isso é preciosismo do cronista.

O segundo achado é esta beleza de “meu olhar vai dar uma festa na hora que você chegar”.

Nossos Brasis são muito ricos – e a música popular sabe bem representá-los nos seus inúmeros ritmos, incluindo letras insólitas, ilógicas e, de qualquer forma, inspiradas.

Leia outras colunas do Ernani Buchmann aqui.