Reinaldo era pessoa de hábitos simples. Dirigia a contabilidade de uma indústria, de onde saía todos os dias às 17h30, dez minutos depois estava em casa. Colocava um calção largo, aprontava o chimarrão e sentava-se com a mulher em frente à casa, cumprimentando quem passava, às vezes convidando alguém para tomar uma cuia do mate.
Edwiges, a esposa, era o oposto. Mulher de proporções felinianas, tinha um palmo a mais que o marido, verticalmente. E uns 20 centímetros de cintura além do recomendado. Ele, magro e frágil; ela imensa, decidida, com voz de tenor.
Depois o improvável casal fazia seu lanche, com chá, pão caseiro, amassado pela mulher, morcela e schmia, antes de ligarem a televisão para assistir ao jornal e a novela. Em seguida, placidamente, cuidavam de dormir, que o dia seguinte exigiria de Reinaldo estar às 7h30 na empresa.
Às vezes havia algum percalço. Isso se dava, por exemplo, quando Reinaldo estava no trono. Os grunhidos eram de tal intensidade que os vizinhos ouviam. Edwiges berrava da cozinha:
– Nado, assim tu rebenta!!!
Desentendimentos, só com o aparelho de barba, visto que ambos dividiam o instrumento. Nado para raspar os pelos da cara e alguns poucos que insistiam em aparecer na careca. Ela para aparar o buço, hábito que, depois de 40 anos de gilete, já deixara uma mancha azul entre a base do nariz e os grossos lábios.
Uma tarde de pleno verão, Nado chegou em casa, vestiu o velho calção estacionado em um prego atrás da porta do quarto, preparou o chimarrão e sentou-se na cadeira de sempre, ao lado da suarenta Wige.
Uns minutos mais tarde, sentiu uma comichão na região, perdoem-me o linguajar, escrotal. Algo havia picado, a bem dizer, suas bolas.
Nado correu para o quarto, baixou o calção e viu horrorizado, agarrada na saqueira, uma imensa aranha. Desmaiou. Correria para o hospital, Nado entrou em coma. Ligações frenéticas para Curitiba, o primo médico mandou que o trouxessem de imediato para o Hospital Evangélico. Ele veio já com soro antiaracnídico em aplicação.
O primo médico examinou a lesão e optou por extrair a pele necrosada que envolvia as bolas reprodutoras. A natureza trataria de providenciar sua cicatrização.
Nado saiu do coma, mas ficou com as pernas penduradas no hospital, na constrangedora situação de “tudo à vista”, durante uma semana.
A pequena cidade entendeu o processo ao contrário: ele tinha sido castrado. A fofoca correu solta. Depois da sua volta, em uma festa de confraternização da empresa, um colega o desafiou para uma partida de sinuca:
– Seu Reinaldo, vamos jogar uma? Dou duas bolas de vantagem!
Todo mundo escangalhou-se de rir. Dias depois, na calçada, tomando seu chimarrão, Nado ouviu coisa como:
– E aí, Reinaldo: tocando as bolas?
– Seu Reinaldo, que falta de respeito com o Senhor! Ora, bolas!
– Nado, bola pra frente!
Ele irritou-se, queixou-se para a mulher:
– Wige, não aguento mais essa gozação comigo.
Ela, do alto de sua autoridade, passou a mão pelo buço recém aparado e sentenciou:
– Você deveria se chamar Predestinado. Predestinado Correia da Souza, conhecido como Nado.
E sobre a zoação, completou:
– Pede para baixarem a bola!
Leia outras colunas do Ernani Buchmann aqui.

