Luli era o apelido da minha mãe. Mulher inquieta, foi professora de inglês, autora de esquetes teatrais, criadora do Woman’s Club, guia de turismo e contadora de piadas.
Certo dia ela me comunica a ideia de produzir um livro com suas piadas. Os planos eram grandiosos. Venderia os exemplares em bancas de jornais, livrarias, aeroportos, seria entrevistada por Jô Soares, já se via como sucesso nacional. Pediu que eu a ajudasse – foi o que fiz, ainda que minha opinião sobre as piadas fosse crítica.
Criei o nome, “Piadas apimentadas da Luli”, revisei e indiquei a gráfica para a impressão. Recebi então o boneco para a última revisão. Ao ler o prefácio, achei uma passagem despropositada. Ela contava a história da primeira piada que contou, aos 13 anos, na mesa de almoço da casa do meu avô. Eram cinco pessoas, seu pai, a mãe e as duas irmãs. Luli chegou alvoroçada:
– Conhecem a piada da Carmen Miranda que chegou no Rio americanizada? – não, ninguém conhecia.
– Ela entrou em uma butique em Copacabana e perguntou se tinha sapato com couro de “crocodailo”. O vendedor respondeu que não, mas tinham com couro de “jac@r@lho”.
Levou uma palmada na boca, dada por meu avô com as costas da mão. E tomou uma espinafrada, para não dizer coisas de que nem sabia o significado. Mas não desistiu de contar piadas.
Como aquilo me pareceu grosseiro, cortei a passagem, reescrevi o prefácio e enviei para impressão. O que eu não imaginava era que, na sua ansiedade, ela fosse visitar a gráfica para saber do andamento das coisas. Ao ler o meu texto, ficou indignada. Reincluiu o prefácio original e liberou.
Tempos depois, organizou o lançamento em uma livraria na Rua Comendador Araújo. Com o local repleto de amigas e amigos, e eu ao seu lado, iniciou explicando a trajetória do livro.
– Este é meu filho Ernani, o escritor da família. Ele me ajudou muito neste livro, mas passou do ponto. No prefácio eu tinha escrito um c@r@lho e ele resolveu tirar. Mandei incluir novamente, porque se o c@r@lho é meu, ponho onde eu quiser.
Morri de vergonha, mas a terceira idade adorou. Como um comandante de avião também gostou.
Luli tinha o hábito de entrar em avião e entregar um exemplar ao piloto. No meio de um voo, o comandante pediu licença e comunicou:
– Temos a satisfação de ter a bordo a escritora (rs,rs,rs) Lucília Buchmann, autora do livro (rs,rs,rs,rs) Piadas Apimentadas da Luli (gargalhadas quase incontidas). Eu recomendo, qua,qua,qua!!!
O livro esgotou a edição, Luli mandou imprimir uma sequência, mas jamais atingir os patamares desejados. De toda forma, morreu orgulhosa da sua obra-prima pornô-literária.

