Entre as excentricidades que Curitiba viu nascer ou abrigou, estão três personagens unidos pelo apelido iniciado com a palavra “Homem”.
O Homem Calzone, muito bem fornido dono de um restaurante de massas; o Homem Cinzeiro, vendedor de anúncios de emissora de rádio, fumante de tamanha intensidade que deixava o cigarro pendurado na boca e as cinzas habitando seus ombros; e o Homem Desastre, o maior estabanado a andar por este planalto.
Tenho pelo Homem Desastre verdadeira admiração, por se tratar de um autêntico Mr. Bean, a bater com folga minhas humildes qualidades neste mister. Dele seguem três tragédias.
A primeira se deu ao entrar em um ônibus de linha, em época anterior aos expressos articulados. Com a aglomeração para entrar, o amigo desastrado foi o último a colocar um pé no primeiro degrau da escada. O outro pé ficou para fora. A porta fechou e lá foi ele, com o pé como uma aleta de carro de corrida tentando equilibrar o coletivo superlotado. Ou talvez parecesse um pedaço de picareta, esquecido ali por algum garimpeiro aboletado em um dos degraus.
Certa madrugada, Mr. Desastre foi ao banheiro do Bar Mignon, um mictório largo que já havia recebido milhões de litros descartados pelas bexigas dos habituês, mantendo um permanente rio dourado que fazia respingar as constantes contribuições. Ali, sobre o leito urinal, o trapalhão resolve coçar uma orelha. Ipso facto, os óculos, indicados aos elevados graus de miopia de seu dono, desabam e passar a navegar no rio amarelo. O atrapalhado meteu a mão no caudaloso riacho para resgatar suas lentes. Mas como estava sem elas, foi obrigado a procurá-las quase ao tato. Pediu sabonete e álcool na cozinha e voltou a usá-los pelos anos seguintes.
A última proeza ocorreu ao se encaminhar para o escritório, no início de uma tarde ensolarada. Sem notar – talvez estivesse limpando os óculos – pisou em um belo monturo deixado por algum cachorro sem modos.
Seguiu caminho, sem notar a merdança. Ao entrar na empresa, a recepcionista cravou sua impressão demolidora:
– Seu Alípio, o senhor está derretendo!
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