Hoje, 12 de maio de 2034, data da minha execução. A pena de morte foi restaurada no país depois de vitória do presidente ultraconservador nas eleições de 2030. Ao sentenciado deu-se o direito de escolher o método, entre os três previstos na lei: fuzilamento, forca ou medicação. Escolhi a segunda opção. As duas outras me pareceram inapeláveis, enquanto a forca, sabe-se lá.
Fechei o diário e deixei na mesinha, pensando que iria tomar o melhor café da manhã da vida, com omelete, salames, geleias, sucos variados, pão francês, croissant, brioches: trouxeram uma xícara de café aguado e um pão dormido.
Quando vieram me buscar, arrotei na cara dos guardas, um arroto de hálito quente e ruim. Estava frio, muito frio para alguém morrer de madrugada.
Amarraram minhas mãos às costas, não perdi o ânimo:
– Vamos lá, pessoal. Amanhã eu volto para buscar vocês.
Os dois guardas se olharam desconfiados. O homem parece possuído, devem ter pensado.
Cantei Raul durante a travessia daquele imenso corredor. Nasci há dez mil anos atrás, eu sou o princípio, o fim e o meio. Metamorfose ambulante passei a cantar ao entrar no pátio. A essa altura os guardas, duas crianças de 18 anos, já estavam querendo me amordaçar a boca e dar no pé.
Olhei o patíbulo à luz das tochas. A coisa estava marcada para as cinco da madrugada, horário de fuzilamento e, pelo jeito, de enforcamento. Ninguém de testemunha naquele antigo convento desativado, de janelas embaçadas.
Fiquei plantado na escadinha, mandando ver na metamorfose, enquanto o carrasco não vinha. Levou uns minutos, ele apareceu, com uma máscara preta cobrindo até o nariz. Parei de cantar.
Trocamos olhares ameaçadores, eu com os meus castanhos, ele com os seus de azul profundo. Berrei:
– Conheço esses olhos, ninguém tem olho igual a esse. Você é o Alfred Axt, que estudou comigo no internato em Corupá. O alemão que tirei desmaiado do rio. Filho do velho Manfred, o marceneiro que construiu meu berço. Veja só como é a vida, agora você vai me matar, que ironia!
O carrasco vacilou. “São os orrdens”, respondeu”. Você matou um homem, não posso fazerr nada”.
– Isso mesmo, Alfred. Se você não pode fazer nada, melhor não fazer mesmo. Foi em legítima defesa, mas o cara era informante da polícia política. Levei azar, meus recursos bateram na trave.
Eu sabia que ele sempre tinha sido meio burro. Quando desmaiou no rio não foi por falta de aviso. Tinha comido uma caixa de Bis e meio leitão no almoço de Páscoa do colégio e resolveu nadar.
– Prometo me escafeder, antes que fosse me faça feder, Alfred.
– Semprre engraçadinho. Prreciso de um cadáver.
– Não precisa nada. Enterre um saco de dormir cheio de areia que dá no mesmo. Ninguém vai conferir. Já pensou o homem que te salvou balançando na forca? Nunca mais você vai dormir.
Os dois guardas resolveram se manifestar:
– O homem é endemonhado, vamo sortá ele, Sargento Axt!
– Axt é machado, Alfred. Você sabe disso, deveria ser carrasco na guilhotina, não na forca. Você não escolheu a especialidade certa.
Ele puxou uma faca do bolso. Mandou-me virar de costas. Cortou as cordas que me prendiam as mãos e berrou no meu ouvido:
– Agorra está zerro a zerro. Some do meu vida, Arrmindo!
Nem o nome do seu salvador ele conseguiu lembrar. Meu nome é Armando.
Sempre armando confusão.
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