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ERNANI BUCHMANN CABECA hojesc

Faca na nuca

Sérgio Mercer e eu íamos de carro até Porto Alegre, para um congresso do Conselho Nacional do Clubes de Criação Publicitária. Mercer era meu sucessor na presidência do clube dos publicitários curitibanos e eu fazia parte do Conselho Nacional.

Saímos de Curitiba em um fim de tarde, jantamos pastéis no Jerke, em Joinville, e seguimos viagem, cada qual contando histórias do seu repertório, ricas de imaginação.

Já na Freeway, entre o litoral gaúcho e Porto Alegre, em plena madrugada, vejo dois sujeitos pedindo carona, ao lado de um carro com o capô aberto. Resolvi parar, contra a opinião do copiloto. Ambos engravatados, apresentaram-se como corretores de seguros, voltando de um jantar de negócios em Tramandaí. O motor do carro tinha dado pane.

Aboletaram-se no banco traseiro, deram detalhes da infelicidade e a conversa murchou. Depois de uns 10 minutos de silêncio, Mercer virou-se para trás e deu o ultimato:

– Escutem aqui, quanto tempo falta para vocês me enfiarem uma faca na nuca e darem voz de assalto? Ou encostarem o cano de um 38 na cabeça do motorista?

Os gaúchos, assustados, de pronto passaram a mostrar suas credenciais: um apresentou a carteira de corretor de seguros, o outro a de economista, uma carteirinha de sócio do Grêmio, fotos da família, um santinho de Nossa Senhora Campeira, uma nota fiscal da churrascaria de Tramandaí e até uma conta de luz a vencer, com o endereço do gremista, saiu do bolso do seu paletó.

Afastado o perigo, a conversa engrenou. Em uma época sem GPS nem waze, fomos guiados até o hotel. Trocamos agradecimentos e eles tomaram um táxi. No dia seguinte, recebemos um pacote na portaria do hotel. Uma garrafa de whisky Red Label. Mercer apossou-se da ampola escocesa alegando propriedade:

– Olhe aí, meu nome está na frente do seu.
– Seu nome? Está escrito Mércio!
– E o seu é Hernande?

Combinamos rachar a oferenda.

Dias depois, já de volta a Curitiba, desfrutando o néctar, lá pela terceira dose Sérgio Mercer tomou-se de indignação:

– Aqueles dois pilantras deveriam ter nos dado duas garrafas. Além de analfabetos, são pão-duros. Você não deveria ter oferecido carona. Eles que voltassem para Porto Alegre em lombo de burro. Estão rebaixados de corretores de seguros a ajudantes de tropeiros. Tenho dito!

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