Este ano, Tânia e eu resolvemos estourar o balão, destruir a pasmaceira, botar pra quebrar. Prenhes de animação carnavalesca, com as malas abarrotadas de fantasias, despachamos as bagagens e pegamos o avião. Cabeça fresca, sonhando com samba no pé, desembarcamos em São Paulo.
A primeira noite foi memorável. A Escola de Samba Unidos do Sono, com seus mestre-sala e porta-bandeira, arrasou na imensa avenida do nosso Sambódromo, digo hotel, com início na porta de entrada do quarto e término na janela. A horas tantas, a porta-bandeira, com voz engrolada, perguntou quem estava sambando na nossa frente:
– Morfeu, respondi. E apagamos.
No dia seguinte fomos a Itatiba, para o desfile do bloco As águas vão rolar. As coreografias submersas das crianças na piscina levaram à apoplexia o público na arquibancada (o público éramos três: Paulo, manejando o churrasco, Thiago, detonando latinhas, e eu, tonto entre a picanha suculenta e o copo de guaraná zero). Na água, as carnavalescas, Tânia, Aline e Jéssica faziam as águas rolarem para a consagração dos astros Flávia e Felipe.
De alma lavada, em sentido literal, nos preparamos para a segunda-feira. Na programação, a disputa entre os blocos Guararapes e Sansão, que dividem a mesma quadra, a Cana Mana, na esquina de ambas. Guararapes trouxe como destaques Vidal de Negreiros e Felipe Camarão, este empanado, espetado e equilibrado na fantasia costeira da rainha Marta, não a do basquete. O bloco Sansão não deixou por menos. Mestre Zé Renato, enlouquecendo as passistas com suas longas melenas, só não conseguiu fugir do fígaro encarregado de cortá-las. Foi cabelo para todo lado.
A peleja terminou empatada, sob vaias das torcidas aboletadas na praça. Mas o dono da Cana mandou servir chope grátis, o que acalmou os ânimos e foram todos para casa.
A terça-feira gorda, já quase dez quilos mais aleitoada, pegou a todos em estágio avançado de lerdeza. A harmonia ficou prejudicada, os apliques caíram e a animação parecia ir embora como Carlitos, quando surgiu a família Barbosa para levantar o astral.
O fornido bloco trouxe a venerável Vanessa como destaque, com os trapalhões Sérgio e Sandro fazendo micagens para a vergonha alheia das damas Daniela e Gabi, enquanto a dupla dos jovens artistas Ângelo e Augusto pilotava drones carnavalescos sem autorização da Anac instalada em Congonhas.
Foi ali, naquele aeroporto, na manhã da quarta-feira, que se deu a tragédia. Uma fiscal de bagagens implicou com as malas sem consistência que levávamos, depois de descartar fantasias, lantejoulas, confetes e serpentinas:
– O que tem aí dentro? perguntou.
– Cinzas, respondi.
Foi o bastante para ela começar a apitar: fui amordaçado por dois brutamontes e levado para a cadeia local. Por sorte, meu advogado conseguiu um habeas-corpus salvador, quatro dias depois. Cheguei ontem à tarde em Curitiba.
As cinzas eram as da quarta-feira, mas o mundo anda difícil, as pessoas perderam o humor.
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