Pular para o conteúdo
ERNANI BUCHMANN CABECA hojesc

Agruras e glória

A falta de coordenação motora gera constrangimentos, ainda que atice a criatividade. Foi assim que descobri um jeito de escrever, com o polegar da mão esquerda na função de guia da escrita que se desenhava na linha acima. Se não era forma conhecida, era a única que me parecia possível para dar conta daquela tarefa dos demônios.

O resultado era sofrível, de difícil compreensão. D. Hilda Keepper, minha primeira professora, de sotaque alemão, jamais pode me dar nota máxima em “Ordem”, tamanha a barafunda a decifrar em meus deveres de casa e nas sabatinas. Ainda assim, passei para o segundo ano em terceiro lugar.

O ano seguinte foi trágico. Resolvidos a consertarem os desacertos do filho mais velho, cuidaram de me matricular em uma espécie de processo torturante chamado “aula de mão direita”. Lá ia eu, caderno e lápis embaixo do braço até a casa da torturadora – digo professora – na mesma Rua Lages, para sofrer durante uma hora tentando garatujar com a mão inútil.

O resultado foi nenhum, além do monumental estresse que me fazia descontar nos irmãos gêmeos, três anos mais moços, o desespero causado pelos exercícios com a mão aceita. As notas no grupo escolar caíram a níveis inaceitáveis. E fui alforriado seis meses mais tarde. Arino e Luli aceitaram, para toda a eternidade a canhotice do rebento estabanado.

Dois anos depois, houve uma premiação promovida pelo 13º BI, para saudar Tiradentes. Minha mãe exigiu que eu fosse à Biblioteca Pública (hoje Rolf Colin) e emprestasse um livro sobre a Inconfidência Mineira. A partir daí, li o livro e respondi às questões levantadas por ela.

A prova me pareceu fácil, eu tinha muito a responder. O problema era o pouco espaço concedido: uma folha dupla de papel almaço. Escrevi naquelas quatro páginas tudo o que sabia – e, não satisfeito, pediu outras duas páginas, as quais também preenchi, escrevendo nas margens e nas entrelinhas.

Quando os soldados divulgaram o resultado na nossa sala de aula, foi uma surpresa geral. Entre 600 alunos dos grupos escolares de Joinville, o primeiro e o segundo lugar estavam ali. Rubens Sá era o segundo colocado e eu o primeiro. Fui correndo para casa, onde entrei aos berros de “ganhei, ganhei”. Minha mãe, assustou-se, deu-me uns tapas e só depois quis saber que diabo estava acontecendo.

A entrega da medalha foi em solenidade no quartel. Subi em um pódio, fantasiado de escoteiro – eu era um soldado de Band Powell, o que durou pouco tempo: fui desligado por insubordinação.

Décadas mais tarde, encontrei a terceira colocada, Maria Cristina Nascimento, do Conselheiro Mafra. Até o ano anterior, era da nossa turma no Germano Timm. Ela nem tinha ido receber seu prêmio, decepcionada com o resultado. Então organizei um encontro com ela, levando a tiracolo dois outros joinvilenses, o designer Francisco Nascimento, do Sesc Paraná, para fotografar o encontro, e a jornalista Joana Neitch, para escrever a matéria que sairia da ocasião.

Levei a medalha e lhe ofereci. Ela era muito melhor aluna que eu, merecia ser premiada. Não segurou a emoção. Chorou, abraçou-nos e foi embora com a medalha na bolsa, sentindo-se desagravada, exatos 60 anos depois do concurso.

Leia outras colunas do Ernani Buchmann aqui.