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ERNANI BUCHMANN CABECA hojesc

A arte de (não) chutar o pau da barraca

O sujeito chegou aos 45 anos esgotado, reflexo da vida corporativa. Decidiu então vender seus negócios em busca de tranquilidade. Escreveu um artigo na Gazeta Mercantil anunciando que havia chutado o pau da barraca e preparou-se para o dolce far niente.

A primeira iniciativa foi comprar a preço de ocasião um ultraleve, carenado, para duas pessoas. Pagou o sinal de negócio, fotografou o avião e foi feliz para casa. Ao mostrar as fotos para a mulher, levou um susto. Ela implicou com o tamanho das rodinhas, com o amarelo da pintura e, pior, declarou a incapacidade do marido, tanto em conquistar o brevê como em pilotar aquela versão moderna do 14-BIS. Frustrado, ele resgatou o cheque e tratou de encontrar outro hobby.

Um amigo, piloto de kart, convidou-o para assistir a uma tarde de treinos na pista. Ficou encantado com o ambiente, o cheiro de graxa e a amizade entre os pilotos, dos quais conhecia diversos. À noite, jantando com a esposa, mostrou-se entusiasmado com aquele outro mundo que havia descoberto. Ela ouviu e fez apenas uma pergunta:

– Você não está pensando em se meter nisso, não é? Quero ver colocar o capacete e não entrar em pânico.

Ele achou o argumento razoável, havia experimentado um capacete e não gostou de ficar com a cabeça presa dentro daquela bola de boliche. Mas retrucou:

– É incômodo, mas a gente acostuma. Em cima de uma Harley, de cara para o vento é mais tranquilo.
– Harley? Você quer uma Harley?
– Se for chopper, com o garfo bem comprido, estilo easy rider.

Ela achou que o marido havia enlouquecido.
– Se comprar qualquer moto, Harley ou não, pode fazer sua mala e sair de fininho. Uma pessoa que não enxerga lombadas não pode dirigir nem patinete com motor.

Restava uma alternativa. Um empresário estava vendendo seu veleiro. Desceram até Guaratuba para inspecionar a joia. Depois foram almoçar.

– O que é que você achou, amor?
– É bonito, mas fica nisso. Aquele banheirinho, a micro cozinha, a criança vai ter que dormir no sofá, não tem como lavar roupa. E a umidade, você gosta de umidade? Não gosta, mas pretende se meter a velejador. Quem vai pilotar o barco, trocar as velas, essas coisas todas?
– Eu.
– Garçom, por favor. Chame a polícia e mande colocar meu marido em camisa de força. E se o vendedor entrar por aquela porta, vou furá-lo com o espeto do churrasco.

E assim acabaram os sonhos de chutar o pau da barraca. Ele voltou a trabalhar e vive com os pés no chão, ao lado da prudente e sábia esposa.

Aliás, vive com os pés e as mãos no chão, latindo de vez em quando.

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