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Ele não usa kilt

Ele não usa kilt

kilt

Meu amigo na Escócia está pronto para votar em Lula no segundo turno da eleição. Não sei se ele vota. Aliás, não sei sequer onde mora. Aparentemente, vive em um bunker de dois andares, cercado de livros e de poções druidas. Para combater doenças, qualquer doença, de bicho-de-pé a bico de papagaio, ele toma um composto de beterraba (beetroot), alho (garlic) e gengibre (ginger) embebidos em água morna. Completa a poção mágica uma dose de vinagre de sidra (cider vinegar) que traz o rótulo da rede de supermercados britânica Essential Waitrose & Partners. O lema do estabelecimento é o seguinte: “Qualidade que você espera a preços que você não imaginaria”. Eu imagino.

Andei gripado por esses dias e ele me recomendou a mistura. “Beba toda manhã e noite”, receitou em português. Respondi: “Kill me now”, em inglês. Somos amigos desde a faculdade de jornalismo na PUC de Campinas, em priscas eras. De certo modo, cumprimos nosso ritual obrigatório. Em 1984, durante a campanha das Diretas Já, nós deitamos no asfalto da Francisco Glicério, a principal avenida da cidade, para evitar que a cavalaria da Polícia Militar avançasse sobre manifestantes. Fizemos mais: nos unimos à Libelu, a Liberdade e Luta, tendência estudantil de viés trotskista, com toda aquela arrogância e porralouquice que só quem viveu essa época poderia exibir. Não vivemos os anos de chumbo, não ostentamos cicatrizes. Em vez disso, pregamos na lapela o broche do Solidarność, o sindicato polonês liderado por Lech Wałęsa. Naquela ocasião, o crente era eu.

É rotina. Trocamos mensagens diariamente e, ao menos uma vez por semana, nos falamos por videochamada. Temos projetos em comum – um deles, escrever o romance policial definitivo em que o detetive descobre, ao fim da investigação, que o assassino é ele mesmo. Acho que isso é plágio de Édipo Rei, de Sófocles. Mas dane-se.

Meu amigo escocês não usa kilt, aquela saia ridícula originária das Terras Altas. Tampouco black-tie. Mas acredita em teorias da conspiração. Agora o crente é ele.

Os EUA vão tomar a Amazônia, Trump é um alienígena de duas cabeças, Musk planeja implantar chips em nosso cérebro, Mark Zuckerberg é um robô e o Claude 4.5 pode identificar o número de câmeras que vigiam cada um de nós, pobres humanos mortais.

Nas últimas semanas, ele tem se ocupado com a missão inglória de me fazer votar em Lula. Sou anti. Integro a faixa de 20% do eleitorado do avatar de Jair Bolsonaro que rejeita o petista sob qualquer circunstância. Lula contra Saddam. Voto em Saddam. Lula contra Putin. Voto em Putin. Lula contra Tiririca. Voto em Tiririca. Lula contra a Gaguinha de Ilhéus. Voto na Ga-ga-ga-gui-gui-nha de Ilhéus.

Felizmente, ele me conhece. Felizmente, eu o conheço. Ele me ameaça com o paredão. Devolvo com uma suposta denúncia ao ICE. Ele me chama de filhote de Netanyahu. Digo que ele não passa de escudo humano do Hezbollah. Ele me ameaça com uma coluna de (argh!) Reinaldo Azevedo. Eu contra-ataco com (argh!) Rodrigo Constantino.

No calor da discussão, ele garante que o financista e abusador sexual de menores, Jeffrey Epstein, está vivo. O suicídio na prisão não passou de encenação. Epstein agora avançou uma casa em seus atos pérfidos: é canibal. Ele viu as fotos. Guardo minhas risadas para o dia seguinte.

Sei que ele virá com outra carga, mas ele é meu amigo. Não é membro de minha família, se bem que o considere muito mais; não faz parte do Jornalistas Sem Fronteiras nem ostenta a condição de membro da Escola de Samba Acadêmicos da Universidade Pública.

Posso fazer troça com ele. Com os outros, não. Se fizer, me juram de morte. Se contrariar, me pegam na rua. Se desafiar, encenam a malhação de Judas.

Ontem, a três dias do segundo turno, em meio à bizarrice da quebra de sigilo “desde que”, uma notícia jogada num cantinho à esquerda do site da Folha de S.Paulo dizia que o INSS está enviando notificações a aposentados informando que votar no segundo turno das eleições também vale como prova de vida.

Meu amigo escocês dirá que isso é legítimo. Até os mortos, se for o caso, devem levantar das sepulturas para votar em Lula e evitar que o 666, o tinhoso, o coisa-ruim, volte a governar o país.

“Somos todos zumbis”, ele escreve. Eu acredito. O crente agora sou eu.

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