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FERNANDA GHIGNONE CABECA HOJESC

Dormir tarde pode estar prejudicando seu coração

dormir

Durante muito tempo, dormir tarde foi visto apenas como uma preferência pessoal. Algumas pessoas se consideram naturalmente mais noturnas e outras mais matinais. No entanto, a ciência vem mostrando que o horário em que dormimos pode ter consequências muito mais profundas do que o simples cansaço no dia seguinte.

Um estudo recente conduzido com mais de 300 mil adultos no Reino Unido e publicado pela American Heart Association analisou durante 14 anos a relação entre o cronotipo, ou seja, a tendência natural de uma pessoa ser mais ativa pela manhã ou à noite, e o risco de doenças do coração. O resultado da pesquisa foi que pessoas com hábito de dormir muito tarde apresentaram pior saúde cardiovascular ao longo do tempo e maior risco de eventos como infarto e AVC, sendo esse impacto ainda mais significativo entre as mulheres.

A explicação está no funcionamento do nosso ritmo circadiano, o relógio biológico que regula praticamente todo o metabolismo. Esse sistema controla a liberação de hormônios importantes como melatonina, cortisol e insulina, além de influenciar em diversos processos do organismo. Quando o sono acontece repetidamente fora do horário esperado pelo corpo, como dormir muito tarde ou manter horários irregulares, esse relógio perde a sincronia.

Esse desalinhamento gera o que muitos pesquisadores chamam hoje de estresse metabólico crônico. Aos poucos começam a surgir alterações que nem sempre são percebidas no dia a dia, como maior resistência à insulina, pior controle da pressão arterial, aumento do cortisol e elevação de marcadores inflamatórios. Com o passar do tempo esse conjunto de fatores cria um ambiente favorável para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares.

Os números observados no estudo são expressivos. Pessoas com padrão de sono muito tardio apresentaram até 79 por cento mais risco de pior saúde cardiovascular e cerca de 16 por cento mais risco de eventos como infarto ou AVC ao longo do acompanhamento. Esses dados reforçam que a qualidade do sono não depende apenas das horas dormidas, mas também do momento em que o corpo recebe esse descanso.

Outro ponto importante é que o comportamento noturno frequentemente se associa a outros hábitos menos saudáveis. Quem dorme tarde tende a ter uma alimentação de pior qualidade e maior consumo de alimentos ultraprocessados. Isso acontece porque o desalinhamento do ritmo circadiano altera sinais de fome e saciedade, aumentando o apetite por alimentos mais calóricos e ricos em açúcar e gordura, além de favorecer escolhas mais impulsivas no período noturno. Esse conjunto de fatores amplia ainda mais o impacto negativo sobre o coração.

O cronotipo não precisa ser irreversível, mudando o estilo de vida existe grande capacidade de modular esse ritmo. Pequenas alterações na rotina podem ajudar o organismo a se reorganizar. Reduzir estímulos luminosos à noite, evitar refeições muito tardias, manter horários regulares para dormir e acordar, além de priorizar uma alimentação equilibrada são estratégias simples que ajudam a restaurar o alinhamento do relógio biológico.

Dormir em um horário mais compatível com o ritmo natural do organismo não é apenas uma questão de disciplina ou produtividade. É uma escolha que influencia diretamente o metabolismo e, no longo prazo, a saúde cardiovascular. Muitas vezes a prevenção começa em algo tão básico quanto a hora em que decidimos apagar a luz.

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